sábado, 7 de setembro de 2013











Recordar o Almirante José Nunes da Mata














Para a Paula Lamego, com um beijo de gratidão
pela sua ajuda!












Acabo de ler, neste veraneio em Cascais, a Agenda Cultural de Setembro/Outubro, onde nos convindam a fazer uma visita pela "Parede Republicana", e se destaca a figura de Nunes da Mata.
Lembrei-me que nos espólios de Bernardino Machado, existe correspondência trocada entre ambos.
As relações pessoais e afectuosas mantiveram-se desde os finais do século 19 até ao Estado Novo.
São muitas as cartas depositadas no Museu de Famalicão e algumas na Fundação Mário Soares.











Dados biográficos retirados do "Dicionário de Maçonaria Portuguesa" - Oliveira Marques 
 

Encontrámos um texto interessante no blogue - "Parede - Bem vindo à minha página pessoal TRIPOD"  -  clicar aqui  - sobre Nunes da Mata, que transcrevemos, com a devida vénia:

DA TERRA DE CANTEIROS A UMA NOVA VISÃO DE PAREDE

 "Perante o cenário anteriormente descrito, surgirá a personalidade fulcral na história de Parede do nosso século - o então Segundo-Tenente, futuro Almirante Nunes da Matta. A primeira passagem de Nunes da Matta por Parede, dá-se em Setembro de 1879 ou 1880, quando se dirigia de Lisboa a Cascais de diligência, para assistir às regatas. Quatro ou cinco anos antes, as vinhas da região tinham sido atacadas pela filoxera. A este propósito, a descrição que nos faz é de que não havia uma única videira, erva ou árvore. Os terrenos na parte Sul de Parede, junto ao mar, eram cultivados principalmente com vinha. O regime de propriedade era o minifúndio, com o terreno dividido em pequenas parcelas e separado por "(...) toscos muros, quase negros que em número incalculável separavam as pequenas parcelas de terreno (...)". A filoxera provocou um forte abalo na economia local e os seus efeitos devastadores deixaram marcas na memória dos habitantes de Parede. Depois de 1883, devido a afazeres vários, Nunes da Matta deixa de frequentar as regatas em Cascais, passando-lhe assim despercebida a construção da linha férrea Cascais-Pedrouços, e as casas e palácios dos  Estoris. Mais tarde, em 27 ou 28 Abril de 1890, encontra o seu amigo republicano Contreiras, que lhe pergunta se já tinha viajado na linha férrea de Cascais e visto as casas e palácios que se estavam a construir nos Estoris. Como ainda não o tivesse feito, Contreiras convida-o a ir na tarde do dia seguinte visitar a região e também para ouvir a sua opinião acerca da casa que estava a construir no lugar da Poça. O já então Capitão-Tenente Nunes da Matta, assim o fez e ficou maravilhado com as condições meteorológicas"(...) raras vezes igualadas em outros locais do planeta (...)", no seu dizer de experiente lobo do mar, que se faziam sentir nesse dia. Visita a casa de seu amigo e ao passear por São João do Estoril, para apreciar as casas e palácios que estavam a ser construídos na altura, Nunes da Matta desgosta-se e entristece-se com o facto de se estarem a construir as casas sobre as ribas do mar, impedindo o usufruto do mar por todos e "(...) prejudicando assim a estética e o futuro brilhante desta esperançosa povoação (...)". O seu correligionário Contreiras, responde-lhe que os proprietários dos terrenos podem neles construir onde quiserem e a Câmara nada pode fazer para o impedir. Nunes da Matta continua a argumentar que a Câmara, através do seu presidente de então, Costa Pinto, poderia conseguir uma lei a fim de impedir, ou caso tal não fosse possível persuadir os proprietários a não construir nas ribas e a deixar espaço para abrir urna rua espaçosa. Entretanto, já estava a entardecer, e no comboio de regresso a casa, Nunes da Matta contempla e extasia-se corn o pôr do Sol e a paisagem que desfrutava. Subitamente "por entre a escuridão", pareceu-lhe ver urn pequeno castelo, ao mesmo tempo que ouvia gritar Parede. Decide regressar rio dia seguinte a Parede para "(...) contemplar o rnar das ameias do castelo (...)". Cumprindo o que tinha prometido a si mesmo, depois de terminar a aula na Escola Naval, embarca para Pedrouços e segue no comboio para Parede. Ao apear-se, rapidamente se apercebe de que o "pitoresco castelo" mais não era do que uma vigia de costa. Apesar de desapontado, Nunes da Matta avança para a vigia: "descemos barrancos" e "saltamos muros e silvados", por entre muros em ruínas até à vigia, subindo a sua "escada desmantelada" até a "sólida varanda". Curioso é o facto de nos informar da aridez da terra e da quase total falta de arvoredo na "inculta planície pouco acidentada". Apercebe-se da existência de duas "(...)graciosas praias, uma vasta e abrigada, do lado do Nascente, e outra, menos vasta e mais sujeita as investidas do mar, do lado do Poente." Depois, voltando-se para terra, avista as "(...) pequenas casas de modestos canteiros e pequenos agricultores (...)" e idealiza "(...) a perspectiva de uma futura e buliçosa vila ou cidade, estendendo-se garbosamente desde as ribas do mar até à costa do outeiro." É neste momento que Parede terá o seu futuro traçado, graças à visão e a obra deste homem, que ditarão o rumo que a localidade irá seguir e que a diferenciará das restantes povoações do concelho e mesmo da Linha de Cascais. No dia seguinte a ter visitado Parede, o Capitão-Tenente vai falar corn Costa Pinto, o Presidente da Câmara de quem era amigo, apesar de ser monárquico, enquanto ele era republicano. Critica as construções que se estavam a fazer, ou já feitas nos Estoris. Costa Pinto responde-Ihe que as câmaras não podiam impedir os proprietários de construir nos terrenos junto ao mar e que não havia lei que o impedisse. Então, Nunes da Matta, apela para que o mesmo não sucedesse em Parede, e aí, o Presidente da Câmara diz-lhe: "Parede!...Parede!.. O meu amigo sabe bem o que está dizendo?.. Parede!... O meu amigo está doido. Tenho muita pena, mas está doido.. . Isso não presta para nada. Nunca passará de uma pobre terra de canteiros". Esta afirmação provoca-Ihe a seguinte reacção de indignação: "Oh Costa Pinto (...),  olhe que não é assim, antes pelo contrário. Parede há-de ter urn grande futuro. Salve as ribas de Parede, Costa Pinto, salve-Ihe as suas ribas do mar!" Face à insistência de Nunes da Matta, Costa Pinto responde-Ihe, "meio irónico": "(...) Meu caro amigo, como já lhe tenho dito e repetido, nada posso fazer a favor das ribas do mar da sua querida Parede; mas, em vista do seu grande entusiasmo, o único meio que vejo, consiste em por sua conta e risco ir comprar os terrenos à beira-mar. E depois de comprar os terrenos, deixe livre a zona que entender. Esta meu caro, é a única solução admissível". Decidido a salvar as ribas do mar de parede e apesar de contrariado pela família e de ser alvo de chacota pelas pessoas das suas relações, começa a comprar os terrenos, pagando sem discutir, o preço pedido - "Alguns não foram caros; mas os próprios vendedores, segundo nos afirmaram, por detrás de nós sorriam e troçavam da nossa idiotice", além de ter "(...) andado de chapéu na mão a pedir aos donos dos outros terrenos que não construíssem casas sobre as ribas do rnar (...)". Na verdade, para os vendedores, os terrenos só serviam para uso agrícola, principalmente para a cultura da vinha, logo, como devido à filoxera não tinham uso, não Ihes atribuíam qualquer valor. Por outro lado, a imagem e a posição expressas pelo Presidente da Câmara de então encarnam a opinião que as pessoas tinham acerca de Parede, inviabilizando assim outro uso para os terrenos, que não o agrícola ou de extracção da pedra, ao contrário do que sucedia em Cascais e nos Estoris, onde Os terrenos eram adquiridos pelos compradores para construir casas, palácios, e chalets de veraneio.
Só um homem com a visão de Nunes da Matta, tem, nesta altura, a percepção de que "Parede há-de ter um grande futuro. " Como republicano, defende que a vista, o acesso e o usufruto do mar devem ser privilégio de todos. Por isso, as ribas do mar e os terrenos que Ihes são adjacentes deviam estar livres de construções e em seu lugar devia abrir-se uma "rua espaçosa", ao contrário do que sucedia nos Estoris, onde a aristocracia e a burguesia se apropriaram do espaço envolvente, de acordo com ideais bem diferentes dos defendidos pelos republicanos. A confirmar estas asserções, está o facto de ter cedido a maior parte dos terrenos "(...) para ruas e também parte para largos, e que a Comissão Administrativa, a seu belo prazer e sem consulta, destina grande parte para avenidas de vinte e cinco e mais metros de largura sem pagar urn centavo. Se se considerar que sempre estivemos prontos a dar terrenos com destino a serviços de utilidade pública, como os terrenos que demos ao Asilo da Ajuda, actualmente Internato Afonso Costa, ao Asilo de S. João, cada urn com uma superfície, pouco mais ou menos, de dois mil metros quadrados, às duas escolas oficiais de Parede, à Associação Musical União Paredense e a alguns particulares." De notar ainda que cedeu outros terrenos a pedido da Comissão Administrativa para a construção do marco fontenário e lavadouro em S. Pedro do Estoril, "(...) não se concluindo esta última dádiva, pela razão dos povos do Murtal se terem oposto à mudança do lavadouro (...)". Nunes da Matta, emprestava as chaves do pinhal de Parede, que mandou plantar, a pessoas doentes e outras, que lá iam repousar. Por tudo isto podemos dizer que o rumo que Parede irá seguir será resultante da concepção que Nunes da Matta tem do que deve ser uma estância balnear, com mar liberto de construções e em que todos os banhistas, turistas e doentes, a possam frequentar. A sua intervenção ao comprar os terrenos, pautou-se por um espírito filantrópico como se deve comprovar pelas doações de terrenos que fez e que estão de acordo com os princípios do ideário republicano da época que ele perfilhava. A obra do Almirante Nunes da Matta patenteia-se no traçado ortogonal da parte de baixo da linha férrea; no facto de ser dos poucos trechos da Avenida Marginal libertos de construções; no tipo de habitação (de que ainda existem alguns exemplos); provavelmente influenciando a instalação do Sanatório de Sant´Ana; e no tipo de ocupantes que aqui se fixam, nomeadamente republicanos.
 
Pelos motivos acima enunciados podemos claramente dizer, do Almirante Nunes da Matta, que apesar de ser uma personalidade com uma obra ímpar e multifacetada, a sua maior realização, ainda hoje a mais visível e notável, foi sem dúvida a que fez em prol de Parede."
 
Uma das cartas de Nunes da Mata para Bernardino Machado (Parede - 10 de Abril de 1932):
 

 
 
 
 

2 comentários:

Aires Henriques disse...

No âmbito do MUSEU DA REPÚBLICA E MAÇONARIA está sendo elaborado um livro EM QUE FALA do vice-almirante e senador José Nunes da Mata. Aproveito para remeter um texto sobre o referido Museu e convidar V. Exª a visitá-lo.
O MUSEU DA REPÚBLICA E MAÇONARIA ergue-se no Centro do país, em Troviscais Cimeiros, no concelho de Pedrógão Grande,a apenas 70 Km de Coimbra.
Conjuntamente com o Museu Maçónico do (GOL) e o Museu Maçónico de Salamanca é um dos três raros museus do género na Península Ibérica.
4. O protocolo de cooperação com o GOL / Museu Maçónico Lisboa
Remonta já a 2002, aquando das Comemorações dos 200 Anos da Maçonaria em Portugal, a colaboração de VILLA ISAURA com o GRANDE ORIENTE LUSITANO (GOL).
Mas só em finais de 2012, aquando da inauguração do MUSEU DA REPÚBLICA E MAÇONARIA, à qual estiveram presentes o poderoso Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano e o Director do Museu Maçónico Português, foi possível a assinatura de um protocolo de cooperação, o qual reputamos do maior interesse para a divulgação na Região Centro da História de Portugal e dos mais sãos princípios de convivência cívica.
5. As colaborações
o acervo de peças de VILLA ISAURA serviu de base à “Exposição República e Propaganda”, promovida em 2010 pela Presidência da República no Palácio de Belém (em Lisboa) e em 2011 no Casino da Figueira da Foz.

6. As Colecções
O Museu em questão é composto por três acervos principais,
6.1. Sala 1 – Da República
Na 1ª sala expõem-se objectos de uso quotidiano relativos ao período final da Monarquia (1880-1910) e às personalidades que estão na origem da República portuguesa (1906-1910),
Sobressai uma vasta colecção de bustos e estatuetas da República portuguesa, fruto de diferentes gostos e concepções artísticas, produzidos a partir de 1907, por José Simões de Almeida, discípulos de Teixeira Lopes e da escola cerâmica das Caldas da Rainha.
6.2. Sala 2 - Da Maçonaria
um acervo de objectos de cerimonial maçónico, como escapulários, faixas e aventais dos vários graus e ritos, canhões (copos) em vidro e pratos em faiança utilizados nos ágapes de confraternização, espadas rituais, bastões de mestre de cerimónias, etc.
Relógios de bolso com motivos maçónicos, jóias dos graus de Mestre e Soberano Rosa Cruz, selo branco e carimbos de óleo de autenticação de documentos em Loja, cartazes, fotos de maçons paramentados, livros raros, diplomas e credenciais de várias Lojas, etc.

6.3. Sala 3 - Do Estado Novo e II Grande Guerra
o acervo disponível aborda o regime do Estado Novo, períodos da II Grande Guerra e da Guerra Civil de Espanha, com uma mostra de figuras alusivas aos políticos da época (Churchill, Stalin, Hitler, etc.) produzidas nas principais fábricas de cerâmica nacionais (Caldas da Rainha, Sacavém e Coimbra).

8. A VILLA ISAURA
9. Contactos Através do e-mail

geral@avillaisaura.com

E telemóveis nºs 919856297 e 917436397

avillaisaura@netcabo.com

Aires Henriques disse...

Poderei remeter fotos do MUSEU DA REPÚBLICA E MAÇONARIA, em VILLA ISAURA,para e-mail que me seja indicado oportunamente.
Atenta a raridade do MUSEU em questão, agradeço a sua oportuna divulgação pelos meios que seja possível.
No acervo disponível em Villa Isaura existem várias peças alusivas e figurativas do Prof. Bernardino Machado e outros ilustres políticos da I República...