quarta-feira, 24 de agosto de 2016








Uma recordação para João Esteves



Com a devida vénia transcrevo da publicação - "Cultura - Revista de História e Teoria das Ideias" - o texto de Fernando Ribeiro sobre Ana de Castro Osório

















terça-feira, 23 de agosto de 2016


 
 
 


No final da Guerra de Espanha (1936-1939) vários grupos de refugiados portugueses atravessaram os Pirinéus para França, onde foram instalados em campos de concentração

A aviação franquista martiriza a capital da Catalunha com raides aéreos diários. Atraiçoada pela pretensa neutralidade das democracias ocidentais e pelo abandono da União Soviética, a República já tem pouca resistência a opor à ofensiva, lançada há pouco mais de um mês pelas forças «nacionalistas» apoiadas pela Alemanha nazi e pela Itália fascista.
O silvar das bombas a cortarem o ar e o troar noturno da artilharia são parte da rotina quotidiana, ao ponto de muita gente já nem se dar ao trabalho de procurar os abrigos subterrâneos ao ouvir as sirenes antiaéreas.
Nessa sexta-feira, 22 de janeiro de 1939, o português Jaime Cortesão sente a casa a abanar com o estrondo dos bombardeamentos. Exilado em Espanha desde a implantação da república, em 1931, o médico, escritor, político, historiador e opositor ao salazarismo, vê as colunas de fumo a elevarem-se sobre o centro da cidade quando sai para se encontrar com Jaime de Morais, destacado chefe político e militar que tem combatido pela República. Ambos vão tomar conhecimento de que Barcelona está condenada e tem de ser evacuada.
«Dois dias ainda nos apegámos com aferro à esperança duma resistência desesperada nas últimas linhas de defesa natural», escreverá Cortesão no seu caderno, num trecho autobiográfico intitulado No Desfecho da Guerra de Espanha (publicado, em 1962, por Óscar Lopes, no livro Jaime Cortesão – a Obra e o Homem).
 
Foram dois dias de agitado desespero.
 
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Jaime Cortesão deixou escrito um relato dramático do que foi a travessia dos Pirinéus.
 
 
Com a rutura da Frente Popular Portuguesa, a derrota iminente da república espanhola e a desmobilização dos combatentes estrangeiros, não há, para eles, mais nada a fazer em Espanha. O fim do que resta do regime democrático em Espanha significa também a morte do Plano Lusitânia (Plano L), para derrubar Salazar recorrendo a antifascistas portugueses enrijecidos na Guerra de Espanha (ver Visão História n.º 18).
É a custo que conseguem encontrar dois carros para tirarem as respetivas famílias (11 pessoas) de Barcelona, além de uma camioneta para as bagagens. A coberto da noite de segunda-feira põem-se a caminho de Centellas, onde vivem filhos de Jaime Morais e está aquartelado um pequeno contingente de tropas combatentes portuguesas (outro, de entre 200 a 300 pessoas, encontra-se perto, em San Juan de las Abadesas).
Em Centellas, vários portugueses querem associar-se ao grupo para atravessar os Pirinéus. Entre eles, os oficiais Cláudio Vilanova e Pedro Batista Rocha. Este último, militante do PCP, major de artilharia no exército republicano espanhol, descreve nas suas memórias o caos das estradas pejadas de gente em fuga. No meio de um tempo frio e borrascoso circulam camiões apinhados de mulheres, crianças e velhos. Há gente a cavalo, de burro ou a pé, transportando parcos haveres e feridos levados em macas.
«Nalgumas localidades improvisaram-se comedouros públicos que distribuíam refeições àquele afluxo de refugiados que apareciam de todo o lado», conta Rocha no manuscrito A Derrota, só parcialmente reproduzido no seu livro Escrito com Paixão (Editorial Caminho) – o original datilografado está à guarda do Prof. João Arsénio Nunes, do ISCTE, que gentilmente nos proporcionou o acesso a essa documentação.
Não tardará e começarão a faltar os bens alimentares. Quem os tem, guarda-os para si. Até o combustível escasseia, e os carros são abandonados na berma da estrada quando se esvaziam os depósitos.

 

“A ESPANHA SERIA FASCISTA…”

Em San Juan recebem, no dia 26, a notícia da queda de Barcelona. Comandados pelo major Inácio Anta, os portugueses ali aquartelados decidem também partir em direção à fronteira francesa. Contudo, o pequeno grupo vindo de Centellas opta por se manter autónomo. Dispõe de reservas de combustível e de mantimentos, bem como de armas para defesa. Seguem para Camprodom.
 
Jaime Morais foi um dos grandes mentores do Plano Lusitânia.

Jaime Morais foi um dos grandes mentores do Plano Lusitânia.
 
O governo republicano, que entretanto se retirou de Barcelona para Figueras, dera ordens para se impedir, até ao dia 28, a passagem de militares e civis pela fronteira, que do lado francês se mantém fechada aos refugiados – no total cerca de meio milhão.
Cortesão e Morais vão a Figueras dialogar com o governo e o Estado-Maior, e, invocando a condição de estrangeiros, conseguem obter as autorizações necessárias para o grupo que já abrange 50 pessoas. Com os papéis carimbados, fazem-se ao caminho. Mas em Mollo, a caravana é mandada parar e regressar a Camprodom. O tempo não ajuda aos ânimos, como testemunhou Pedro Batista Rocha:
«As más notícias, a sensação de derrota, até o céu cinzento como que a vestir crepes pelo desastre, contribuíram para o estado geral de acabrunhamento que cada um tentava disfarçar o melhor que podia. A Espanha seria fascista…»
A chuva miúda não parece querer parar. O frio não abranda. Mas, após um compasso de espera, podem seguir viagem rumo a França, pelo vale d’Arès, guiados por um pouco esclarecedor mapa Michelin. Muita bagagem já foi deixadas para trás. O camião transporta agora pessoas que se tapam o melhor que podem com capotes rapidamente encharcados. A tensão nervosa é grande. Há mulheres, crianças chorosas e velhos fatigados. Todos a tremerem de frio.
A estrada piora à medida que serpenteia pelos Pirinéus. Ao fundo das ribanceiras, veem-se carros que, depois de ficarem sem gasolina, foram para ali atirados. Na berma, há malas abandonadas. Roupas, estojos e até máquinas de escrever, que pesam para quem tem quilómetros a pé pela frente.
A chuva converte-se em neve, a visibilidade é quase nula e os carros começam a derrapar por causa do gelo na estrada. As crianças aconchegam-se às mães e a mulher de Jaime de Morais desmaia. A caravana imobiliza-se. Torna-se impossível continuar. Um grupo de homens resolve, então, fazer um reconhecimento da zona e descobre, ali perto, uma maisa (casa rural catalã), onde o grupo é acolhido. Trata-se de uma grande propriedade já repleta de outros grupos de refugiados.
«Éramos cinquenta náufragos escorrendo água, tomados de aflição e desespero», relatará Jaime Cortesão.
Ali ficam durante alguns dias. O grupo organiza-se, alimenta-se das reservas que leva e compra alimentos aos donos da propriedade que aproveitam para «meter a unha».
«Quase toda a rapaziada participava na preparação da comida», conta Rocha. E Judith Cortesão (filha de Jaime), vestida com umas calças da tropa, revela-se uma camarada à altura, carregando lenha, acendendo o lume ou descascando batatas. Como há falta de talheres e pratos, come-se à vez. Contudo, no meio da amargura, não se deixaram de abrir duas garrafas de vinho do Porto para celebrar o 31 de Janeiro, data do primeiro levantamento revolucionário republicano, em 1891.

No final de janeiro e início de fevereiro de 1939 cerca de meio milhão de pessoas atravessou a fronteira entre Espanha e França, entre elas mais de duas centenas de portugueses que por serem opositores do regime de Salazar não podiam voltar a Portugal

Os preparativos de partida iniciam-se numa manhã de sol esplendoroso e a caravana põe-se novamente em marcha. Mas, quando está a cerca de um quilómetro da fronteira, os carros têm de ser abandonados por causa da imensa camada de neve que obstrui a precária estrada de montanha. Toda a gente tem de seguir a pé, incluindo crianças, doentes e, segundo Cortesão, uma mulher grávida de nove meses.
O problema das bagagens é parcialmente resolvido graças ao providencial aparecimento de um carroceiro catalão que andava por perto e que, depois de muita negociação e algumas ameaças por parte dos portugueses, aluga o seu carro de bois.
A carroça afigura-se providencial. E Cortesão consegue empilhar nela algumas das caixas de arquivo que trouxera de Barcelona. Carregada, a «desengonçada caranguejola» põe-se a caminho, montanha abaixo, encabeçando o cortejo de refugiados portugueses. Demasiado carregada, segue ladeada por alguns homens que amparam a pirâmide oscilante de bagagens. Cortesão testemunhará que não foi fácil fazer passar a carroça «por cima da neve e por entre o dédalo de veículos abandonados».
É perto das duas da tarde do dia 3 de Fevereiro quando passam, finalmente, a fronteira – um isolado posto de carabineiros espanhóis. A localidade francesa mais próxima situa-se ainda a uns 13 quilómetros, com a estrada a descer abruptamente dos 1 700 para os 800 metros de altitude e a converter-se numa «estreita vereda total e espessamente coberta de neve».
Os sinais do caos e do pânico da fuga são cada vez mais. Uma vez mais, carros, roupas, peças de calçado, livros papéis e alimentos abandonados amontoam-se no caminho ou no declive das ravinas. A descida faz-se depressa pela vereda inclinadíssima, ladeada pela borda de uma ravina abrupta. Num ponto onde o caminho é muito estreito, a terra esboroa-se sob o peso da roda direita da carroça que se curva, despenhando-se com toda a carga.
Jaime Coretsão sente um aperto no coração. Lá em baixo ficarão enterrados sob a neve os seus haveres. Mas o que mais lhe dói são os ficheiros em que acumulara vinte anos de trabalho de investigação. Então com 54 anos e cansado, ainda tenta descer para salvar alguma coisa, mas resvala, rolando pelo declive e magoando-se.

 

“Estrangeiros indesejáveis”

É noite quando os refugiados avistam uma fila de gendarmes franceses a cortarem a estrada. Pouco depois de atravessarem a fronteira, o grupo separa-se. Na primeira localidade que encontram, Prats-de-Mollo os portugueses são recebidos por organizações humanitárias com leite quente, pão e chocolates. Mas o acolhimento passou por várias fases, as restantes menos simpáticas.
Vários foram os grupos que, à semelhança do de Cortesão e Morais, atravessaram nesses dias frios a fronteira franco-espanhola.
Infiltrado entre os exilados portugueses, um agente da PVDE (precursora da PIDE) com o nome de código «homem de Barcelona», também fez a travessia dos Pirinéus para reportar a Lisboa, no dia 12 de fevereiro: «Por vários meios pude saber que entre os internacionais vinham 176 portugueses misturados com os espanhóis.»
 A esmagadora maioria dos refugiados estaria indocumentada. «Chegados a França, os que tinham passaportes, verdadeiros ou emitidos com outros nomes pelos consulados da Argentina ou México, puderam escapar, ainda que com dificuldade ao internamento nos campos de concentração», lembra o historiador César de Oliveira, no seu livro Salazar e a Guerra Civil de Espanha (Edições «O Jornal»). Era o caso de Jaime Cortesão, Jaime de Morais Emídio Guerreiro (mais tarde fundador do PPD/PSD) e Utra Machado, entre outros.
Virada politicamente à direita, a França tomou medidas contra o esperado afluxo do que dizia serem «estrangeiros indesejáveis» – um eufemismo para «vermelhos», logo tidos como perigosos, tendo criado vários campos de internamento.
A maioria dos refugiados, combatentes e não combatentes, é inicialmente encaminhada para o campo de concentração de Argelés-sur-Mer. Depois haverá uma distribuição pelos de Gurs, Saint Cyprien, Barcaré, Vernet e Var-Draugignan.
Pedro Batista Rocha conhecerá os de Argelés-sur-Mer, Gurs e Vernet, guardados por gendarmes senegaleses que praticavam, sobretudo numa fase inicial, todo o tipo de abusos sobre os prisioneiros.
O militante do PCP é transferido, juntamente com outros portugueses, para Argelés, poucos dias depois de chegar a França. A situação nos primeiros dias é dramática, contará. Chegam de noite, integrados numa fila interminável de gente.
«Atravessámos as ruas duma localidade e fomos encaminhados para os lados da praia, onde estavam a ser concentrados os refugiados. Avistámos inúmeras fogueiras que se estendiam por vários quilómetros.»
Na praia, há vedações de arame farpado guardadas por senegaleses e spahis (cavalaria ligeira do norte de África), soldados do exército e gendarmes.
 
Campos improvisados em plena praia

Campos improvisados em plena praia.
À volta de cada fogueira, vislumbram-se dezenas de vultos acocorados.
«Encontrávamo-nos num talhão delimitado por uma dupla barreira de arame farpado e, vencidos pela fadiga, parámos.»
Sem lenha para fazerem fogo, cansados e com fome, frio e sono, deitaram-se na areia ao ar livre, envoltos numa neblina rasteira e húmida. No dia seguinte, procurariam as barracas. Para melhor se protegerem, deitam-se todos do mesmo lado, aconchegados uns contra os outros, cobertos por um capote.
«De manhã, quando acordámos, devido à geada, o capote estava duro como papelão. A nossa roupa húmida. Os pés frigidíssimos. A areia à nossa volta estava coberta de uma espessa camada de orvalho.»
 


Cada um abrigou-se como podia.
O abastecimento é um problema. Falta tudo e passa-se fome ao ponto de se abaterem os animais que acompanham alguns desde Espanha: cavalos, cães e burros servem de repasto aos famintos. A gordura é guardada para «adubar» sopas ou serve de combustível a latas de conserva convertidas em lamparinas com as torcidas feitas a partir de fios de cobertor; dos ossos fazem-se as estacas para fixar toldos abarracados. Tudo se aproveita, desde as crinas às peles de animais, após uma curta curtimenta, aos restos de automóveis desmantelados.
Os campos organizam-se lentamente. E, dentro deles, os prisioneiros por correntes políticas, ocupando o tempo com atividades desportivas, culturais e de formação e até estudando. Num dos campos, o núcleo comunista português chega a editar um boletim de quatro páginas.
Os combatentes internacionais de países democráticos começam a ser repatriados. Alguns conseguem emigrar para a União Soviética, Cuba, México e Argentina. Para os originários de ditaduras, como Portugal, Alemanha e Itália, o repatriamento era sinónimo de prisão e tortura. E estes são usados como mão de obra barata na agricultura francesa. Com o deflagrar da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, são chamados a voluntariarem-se para a Legião Estrangeira ou a participarem em brigadas de trabalho.
A invasão da França pela Alemanha, no ano seguinte, vai apanhar vários portugueses ainda nos campos. Alguns são aliciados para trabalhar na Alemanha, entre eles Pedro Batista da Rocha. Outros, como o comunista Júlio Mateus Farinha e o anarquista José Rodrigues Reboredo, optaram por regressar a Portugal, com tudo o que isso implicava. Nestes dois casos, o campo de concentração da PVDE no Tarrafal, Cabo Verde.
E houve quem tivesse tido mais azar e fosse parar aos campos de concentração alemães. O anarquista José Agostinho das Neves foi deportado para Dachau, em 1944, sendo libertado no ano seguinte pelas tropas norte-americanas. O major Inácio Anta, que comandava o contingente português em San Juan de las Abadesas, seria transferido, em janeiro de 1943, para Sachsenhausen, onde morreria em fevereiro de 1945, dois meses antes da libertação desse campo pelos soviéticos.
Este trabalho foi inicialmente publicado na edição nº. 32 da VISÃO HISTÓRIA (dezembro de 2015)
 
 
 
 
 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

 
 
 
 
 
 
 
Do portal da Torre do Tombo
 
 

 

Os quatro avisos de D. Pedro: 600 anos de atualidade

 

Volvidos 600 anos, após a Carta de Bruges, perduram as lacunas, os defeitos, os vícios que inviabilizam perspetivas para impedir os desgastes da rotina e estagnação.
 

A vocação da política do Atlântico e da política da Europa voltam a estar na ordem do dia e constituem tema de debates nacionais e internacionais. A descolonização (inevitável mas tardia) e a entrada (necessária e urgente) na União Europeia recolocaram, uma controvérsia que tem percorrido os séculos, que dividiu e continua a dividir henriquistas e pedristas.
Todas as homenagens foram prestadas ao infante D. Henrique mas está por fazer a reparação devida à memória de D. Pedro, traído e assassinado, às portas de Lisboa, o cadáver, entregue à voracidade dos cães e dos milhafres, a apodrecer dias e dias seguidos, nos campos de Alfarrobeira. Só muito depois teve sepultura, ao lado dos pais e dos irmãos, na Capela do Fundador, no mosteiro da Batalha.
Ínclita geração de altos infantes assim celebraram Os Lusíadas, os filhos legítimos masculinos de D João Iº e de Filipa de Lencastre. Além deste verso emblemático, Camões tem outras referências ao Infante D. Henrique e ao Infante D. Pedro, ambos classificados de «generosos», na aceção peculiar atribuída a esta palavra, entendida como genuína estirpe e elevada linhagem. Mas Fernando Pessoa, na Mensagem, já definiu particularidades que singularizaram cada um dos infantes. D. Henrique, surge n'A Cabeça do Grifo«entre o brilho das esferas/ tem aos pés o mar novo e as mortas eras,/ o globo mundo em sua mão». D. Pedro, o infante das «sete partidas», destaca-se «fiel à palavra dada e à ideia tida,/ claro no pensar e claro no sentir/e claro no querer/indiferente ao que há em conseguir/que seja só obter».
Pessoa apresentou nestes termos os protagonistas da política do Atlântico e da política da Europa. D. Fernando, na caracterização de Pessoa, ficou «sagrado em honra e em desgraça».
Nada mais exato. Assim o descubro nas tábuas do políptico de São Vicente de Fora. E qual o retrato de D. Duarte? Pessoa é muito explícito. É o rei que se debate com as angústias interiores, as lutas familiares e as discórdias conjunturais: «A regra de ser rei/ almou meu ser/em dia e letra /escrupuloso e fundo./Firme em minha tristeza/ tal vivi./Cumprir contra o destino/ meu dever/ inutilmente?/ Não, porque o cumpri».
Robert Ricard, no estudo L’Infant D. Pedro de Portugal et “O Livro da Virtuosa Bemfeitoria”, resumiu tópicos essenciais da Carta de Bruges enviada, em 1426,pelo Infante D. Pedro ao seu irmão D. Duarte, antes de ocupar o trono. A Carta de Bruges assenta nos conhecimentos recolhidos, vividos e comprovados por D. Pedro ao percorrer, demoradamente, a Europa, nos contatos em várias cortes, a estabelecer relações diplomáticas e politicas para a consolidação da independência de Portugal após a crise de 1383-1385 e a expedição a Ceuta, em 1416.
A viagem foi, ainda, decisiva para a ação que o infante D Henrique viria a desempenhar. Sem os livros e os mapas, trazidos pelo infante D. Pedro, a aproximação com os cartógrafos judeus e outras informações náuticas e científicas, o infante D. Henrique nunca teria iniciado e prosseguido os descobrimentos marítimos, a expansão de Portugal no mundo. Enquanto D. Pedro, em complementaridade com a política do Atlântica, lançou as bases da política da Europa, cruzamento de afinidades geográficas e de vínculos históricos para formar, acima das pátrias, a união de todas as pátrias, uma consciência universal para o salto qualitativo, na aproximação com as realidades. Encerrado o ciclo do império colonial, representou a solução estratégica para a modernização e desenvolvimento do País, a identificação com os valores da cultura europeia e da civilização ocidental, a busca de um modelo politico, económico e social, para superar fatalidades periféricas, egoísmos nacionais e opções paralisantes.
Por outro lado, a Carta de Bruges, um dos textos doutrinários do pensamento politico, enumera diretrizes para a correta administração pública e dos serviços públicos. O infante D Pedro recomendava a D Duarte, quando tivesse de assumir funções: «O governo do Estado deve basear-se nas quatro virtudes cardeais e, sob esse ponto de vista, a situação de Portugal não é satisfatória. A força  começa por indicar — reside em parte na população; é pois preciso evitar o despovoamento, diminuindo os tributos que pesam sobre o povo».
Pondera, noutro passo: «Impõem-se medidas que travem a diminuição do número de cavalos e de armas. É preciso assegurar um salário fixo e decente aos coudéis, a fim de se evitarem os abusos que eles cometem para assegurar a sua subsistência». Exemplifica: «É necessário igualmente diminuir o número de dias de trabalho gratuito que o povo tem de assegurar, e agir de tal forma que o reino se abasteça suficientemente de víveres e de armas». Para verificar incumprimentos de objetivos sugeria: «uma viagem de inspeção, atenta a estes aspetos, deveria na realidade fazer-se de dois em dois anos».
A justiça era outra das causas que mobilizavam D Pedro. Tinha a convicção (e provas inequívocas) que a Justiça «só parece reinar em Portugal no coração do Rei [D. João I] e de D. Duarte; e dá ideia que de lá não sai, porque se assim não fosse aqueles que têm por encargo administrá-la comportar-se-iam mais honestamente. A justiça deve dar a cada qual aquilo que lhe é devido, e dar-lho sem delonga. É principalmente deste último ponto de vista que as coisas deixa a desejar: o grande mal está na lentidão da justiça».
Outra questão que preocupava D. Pedro mereceu este oportuno conselho: «um dos erros que lesam a prudência é o número exagerado das pessoas que fazem parte da casa do Rei e da dos príncipes. De onde decorrem as despesas exageradas que recaem sobre o povo, sob a forma de impostos e de requisições de animais. Acresce que toda a gente ambiciona viver na Corte, sem outra forma de ofício».
Quase 600 anos depois, deparamos os mesmos condicionalismos estruturais. Todos sabemos que os cavalos são outros. São outros os coudéis. E também são outras as bestas. Mudaram, apenas, algumas denominações, transportes e indumentárias. Se a situação de Portugal não era satisfatória confrontámo-nos com uma situação abaixo dos limites aceitáveis. Os últimos governos encerram empresas e fábricas, revogaram contratos, despediram milhares e milhares de trabalhadores. Houve a emigração de desenhas de milhares de jovens qualificados. Foram anuladas conquistas fundamentais na saúde, na educação, na segurança social e na cultura. Agravaram impostos. Atingiram rendimentos e bens reais ou potenciais. Acentuaram o espírito punitivo, com raízes na Inquisição e na PIDE. A banca encontra-se desmantelada. Responsáveis impunes, em liberdade, a coberto de atestados médicos, pagos a peso de ouro.
Portugal está subjugado ao Fundo Monetário Internacional, à Comissão Europeia, ao Banco Central Europeu a multinacionais de telecomunicações e de comunicação. Vivemos sob a ameaça da divida e o terror do défice, que têm de ser reestruturados, a fim de promover crescimento e gerar emprego. A multiplicação de homicídios, abusos sexuais, violência doméstica, roubos, falsificação de documentos, fraudes fiscais, subornos, corrupção e outros crimes económicos e financeiros, requer a operacionalidade da Justiça, a dignificação da magistratura, a eficácia e funcionamento de todos os Tribunais. E em todas as instâncias. Mesmo do Tribunal de Contas e do Tribunal Constitucional. O grande mal da lentidão da justiça, prolonga-se inaceitavelmente. Ultrapassa a morte de centenas de injustiçados. Favorece as prescrições de processos escandalosos.
Mantem-se o «número exagerado de pessoas» ao «serviço do rei e dos príncipes». Sempre os mesmos e que se revezam e aumentam em cada governo, em cada autarquia, em cada legislatura. Chamam-se assessores, técnicos especialistas, facilitadores, intermediários, a trupe dos aparelhos partidários, gente ociosa e incapaz de «outra forma de ofício». Instalados em escritórios de advogados e gabinetes de consultores, para justificar negócios, planear manipulações, exercer tráfico de influências constituem a praga do favoritismo descarado e o vírus da intriga permanente.
Volvidos 600 anos, após a Carta de Bruges, perduram as lacunas, os defeitos, os vícios que inviabilizam perspetivas para impedir os desgastes da rotina e estagnação. A análise e a hierarquização feitas por Robert Ricard não tiveram em vista abranger os governos dos últimos vinte, trinta ou quarenta anos. Datam de 1953. Daí ganharem mais amplitude e significado as advertências de D. Pedro ao rei D. Duarte e a todos quantos lhe sucederam em monarquia ou aos chefes de estado em regime republicano.
Revejo D. Pedro, nestes momentos de crise e incerteza, no poema que lhe consagrou Sophia: nunca choraremos bastante nem com pranto/assaz amargo e forte/aquele que fundou glória e grandeza/e recebeu em paga insulto e morte. Este foi e é o meu D Pedro que regulamentou o povoamento da ilha de S. Miguel, que sempre o desconheceu e levantou outras estátuas. Reencontro-o, mais uma vez, tão vivo quanto o seu legado permanece por cumprir. Modelo de cidadania ativa, de aposta continua no futuro e luta aberta contra as mãos sujas da corrupção.
Jornalista, investigador e membro da classe de Letras da Academia das Ciências



Do blogue


PORTUGAL NA GRANDE GUERRA DE 1914-1918

Fernando Correia de Oliveira

2 — O “falcão” Chagas e a “pomba” Aquilino

Um tinha 29 anos e muito sangue na guelra, o ânimo de remover montanhas, mas era pacifista. O outro, com 51 anos, já dava mostras de algum cansaço revolucionário, mas queria levar, a todo o custo, Portugal a entrar na guerra. Aquilino e Chagas cruzaram-se em Paris, em 1914, onde um estudava e o outro era embaixador. Ambos escreveram para os seus diários as impressões do momento. De fazer saltar faíscas.

“A Alemanha que procede de Versalhes é dos tais vencidos a que deixaram os olhos para poder chorar. Retalharam-na, empobreceram-na, humilharam-na, quando a boa política seria apenas arrancar-lhe unhas e dentes, que tão assanhadamente arranharam e morderam, para que cedo, um meio século, não ousasse recomeçar. E, desde o ‘Diktat’ da paz até à sua entrada para a Sociedade das Nações, sofreu uma espécie de ‘passage à tabac’, aplicado vezes a eito e com frio método.” A “compreensão” de Aquilino para com a agressividade germânica está contida no prefácio, de Maio de 1934, ao diário que 20 anos antes escrevera em Paris, entre 1 de Agosto e 26 de Setembro, e que só então era publicado, sob o título “É a Guerra”. E a agressividade do Reich estava de novo a pressentir-se.

Nascido em 1885, em Carregal da Tabosa, Sernancelhe, Aquilino faz estudos de Filosofia em Viseu, na intenção de seguir curso teológico em Beja, como é desejo de sua mãe. Desistindo por falta de vocação, é atraído a Lisboa, vivendo desde logo intensamente o ambiente revolucionário. Em 1907, um acidente mudará a sua vida: guardou no seu quarto, a pedido de amigos republicanos, um caixote de explosivos que rebenta acidentalmente, matando um dos conspiradores. O jovem Aquilino é preso pela polícia monárquica, mas consegue evadir-se, refugiando-se em Paris. Está matriculado há quatro anos na Sorbonne quando a guerra o surpreende. Regressa em Setembro a Lisboa. Morre na capital, em 1963.

“Vou à Legação de Portugal, Avenida Kléber. Faz quatro anos que ali se conserva inalterável, sem mudança de vírgula, semelhante a estampa encaixilhada, o panorama em que João Chagas assentou a sua ministerial magnificência: o Tomás herdado do conde de Sousa Rosa, que acolhe toda a gente com um bom e curial sorriso; a antecâmara alfaiada com dois tarecos desirmanados, deserta quase sempre ou onde passa de raro em raro ‘un marchand de vin’ ou de batata da Normandia, quando não é laparoto nacional, desgarrado na Babilónia; e atrás das paredes a eterna metralhada, tep-tep-tep, das máquinas de escrever. Porque se afanam assim os prestimosos aparelhos só Chagas poderia explicar.

É persuasão minha que o seu constante e exemplaríssimo labor não corresponde a necessidade real no despacho da chancelaria; que representa, sim, uma doce invenção do antigo panfletário, maneira de se capacitar a si e, porventura, aos outros da operosidade diplomática que ali lavra sob a alçada do seu omnipotente e manhoso tacto. Os adidos e secretários, excelentes pessoas e caseiríssimos pais de família, tamborilam no alfabeto mecânico a romper a polpa dos dedos, amenizando a cáustica estopada com a chalaça brejeira e o cigarrinho chupado até ao sabugo, de olhos no relógio de pulso à espreita que escorram as lesmas ronceiras das horas.”

A pasmaceira saloia e teatral da embaixada portuguesa, aos olhos de Aquilino, tem como protagonista um velho e arguto revolucionário republicano, já algo gasto e desiludido em apenas quatro anos de regime.

A sinecura dourada

Escritor, político e jornalista, João Pinheiro Chagas nascera em 1863, no Rio de Janeiro, de uma família de portugueses emigrados dos tempos das lutas liberais. Panfletário, iniciou a sua carreira no “Primeiro de Janeiro”, no Porto. Processado frequentemente pela sua truculência, foi condenado em 1891 a quatro anos de prisão e a seis de degredo, por envolvimento na revolta do 31 de Janeiro. Consegue fugir para Paris, regressa na clandestinidade, volta a ser preso, a sua popularidade entre as gentes republicanas cresce. Implantada a República, foi nomeado embaixador em Paris, mas regressa e preside, em 1911, ao primeiro Governo constitucional. Volta a Paris depois da queda do seu executivo, demite-se de embaixador quando do golpe de Estado do general Pimenta de Castro. Regressa ao posto de embaixador em 1915, após um atentado que lhe rouba um olho e nova chefia do governo. Morre no Estoril, em 1925.

A saída de Lisboa, em 1911, fizera-se sem grandes penas. “A república dá-me a impressão de uma desordem que cada vez mais se agrava, em que há facadas, em que já corre o sangue, e a que eu assisto de longe, com o coração aos pulos, mas de braços cruzados”, confessa em 1914. O diário, editado postumamente pela viúva de Chagas, em 1929, “provoca a comoção nos meios republicanos — perseguidos e desmoralizados pela ditadura saída do 28 de Maio”, refere João B. Seabra no prefácio à edição de 1986. “Muitos dos mais dedicados amigos de Chagas não esconderam indignação. As fidelidades que resistiram à prova contam-se pelos dedos de uma mão.” “Eu penso com inquietação no papel que Portugal vai desempenhar nesta guerra, se ela se desencadear e a Inglaterra entrar em cena”, dizia João Chagas no seu diário, a 29 de Julho de 1914. Mas, embora apreensivo, não hesita sobre qual a política que Lisboa deve ter face ao conflito.

A 2 de Agosto, reagindo ao despacho diplomático recebido nesse dia, dando conta da posição dúbia portuguesa, de neutralidade não declarada, segundo os desejos de Londres, Chagas regista no seu diário: “Fiquei desolado! Pois quê? Portugal não compreende que é este o momento, ou nunca, de resgatar o seu passado de tutelado da Inglaterra e ser enfim o seu aliado, de ser alguém?” Em carta, de 4 de Agosto, ao embaixador português em Madrid, Augusto de Vasconcelos, volta à carga: “Portugal deve assumir sem tergiversações o papel de aliado da Inglaterra e dar-lhe o pouco que pode dar-lhe e não esperar que ela lho exija ou o tome por suas mãos.”

Um diálogo bélico-pacifista

Aquilino reconstitui, à sua maneira, o encontro que teve com Chagas na embaixada, poucos dias depois da guerra ter começado:

“Mergulhou os olhos um segundo, não mais que um segundo, no papel almaço em que reluzia a sua caligrafia de largos riscos, com espaços bastante amplos para se escreverem sonetos e, em timbre sarcástico, levemente roufenho, proferiu:

— Deixou-se germanizar?

— Imagino que não. Pelos meus artigos na ‘Capital’, artigos que vossa excelência me deu a honra de aplaudir, sabe que sou contra o chauvinismo, todos os chauvinismos, contra a guerra, todas as guerra, mais nada!

Contava, da malcriadez que lhe é própria, ter de me retirar com mais ou menos brusquidão, pelo que já me dispunha a sair, quando tornou:

— Portugal ainda não declarou a beligerância, não senhor, e todavia é urgente que a declare. É uma questão de decoro e de independência. Se quer viver, se quer ser alguém no concerto da Europa futura, apresse-se a entrar em guerra com o pouco que tem, com o pouco que pode dar, contra os impérios centrais. O contrário é o suicídio... Só têm direito de viver as nações nobres, leais, senhoras dos seus destinos. As nações acalcanhadas pelos tiranos de dentro ou de fora morrem irremediavelmente. Veja o senhor de que modo, com um fácil gesto, o nome de Portugal se pode encher de glória nesta hora triunfal!

— Triunfal?

— Sim, a Alemanha perde, tão certo como as águas do Sena correrem para o mar. O buldogue inglês nunca mais larga a presa em que ferrou os dentes. A questão é pegar. E, de resto, se a Inglaterra fosse ao fundo, íamos em boa companhia.

Causa-me calafrios um conceito tão extremo e com pavor fico a imaginar que se possam tomar irreflectidamente, como pretende este homem, decisões de alcance extraordinário que envolvem o bem-estar e a vida de milhares de pessoas. Mas ele não faz reparo ao meu silêncio e diz-me ainda:

— De hoje em diante, tomo a peito levar o meu país à guerra; vou pregar a cruzada; serei Pedro Eremita. Esta noite escrevi para Lisboa, endereçadas a amigos e pessoas influentes, uma dúzia de cartas. Bem sei que jogo o meu posto, mas tal contingência não me detém um minuto. Todas as razões e mais uma nos aconselham a entrar em guerra. O próprio interesse da humanidade!... (...) Esta guerra será a última. Por isso, não há o direito de lhe fugir.”

E Aquilino interroga-se: “É possível que a sorte de uma comunidade de seis milhões de almas, denso, vibrátil e complexo coraleiro, esteja em dado momento à mercê de caprichosa e anárquica vontade? Decerto que sim e é o caso de João Chagas. Para que semelhante homem represente em Paris, centro nervoso do mundo, a nação portuguesa, é preciso que esta ande bem escassa de valores ou que sofram de miopia grave os nossos governos. Não que Chagas não reúna altas e invejáveis qualidades, como dispor de pena brilhante e acerada, de razoável cultura para quem viveu sempre em bolandas e na rosa divina, o espírito dele marcar por audacioso e vivaz e na conversa ser o encantador Merlin.

Tem a república também que estar reconhecida ao seu passado de democrata e há que admirar a abnegação e constância com que levou a vida inteira no incerto combate. Quanto à pessoa social, em terra tão abastardada como a nossa, Chagas é o homem distinto. Em Paris não vai além de rasta, mas rasta que tresanda [João Chagas era mulato]. Ainda aqui, a falha de chá e de boa educação ele a supre pela insolência sem limites e à-vontade que lhe são peculiares; e, como o francês acaba por transigir com tudo o que não seja tacanho, João Chagas tem passe sob este ponto de vista.”

Chagas era a pessoa menos indicada, segundo Aquilino, para ocupar a legação de Paris. Para o escritor, “as democracias fizeram destes cargos sinecuras para os homens de escol necessitados, quando antigamente, e ainda agora sucede com as monarquias aristocráticas, eram lugares de relevo e de prosápia, apenas acessíveis aos mimosos da fortuna, com estadão a luzir. Chagas veio para Paris sem ter onde cair morto, o que se lhe não pode levar a mal.”

O posto de embaixador era para Chagas o coroar de uma carreira política intensa. Nas suas próprias palavras, estava em França “cheio de entusiasmo patriótico, feliz pela obra realizada no [seu] país, julgando encetar uma carreira brilhante que era o prémio da [sua] vida”.

Mas a “reforma dourada” do revolucionário é impiedosamente tratada por Aquilino:

“Do Majestic, na Étoile, em que primeiro assentou e tomou contacto com o mundo transatlântico, endinheirado, ‘parvenu’, de que aquela casa é o predilecto caravançarai, transitou para o primeiro piso da Avenida Kléber, mesmo por cima da chancelaria, que trastejou o melhor que soube e pôde com alfaias de bazar e faianças de imitação, um pouco rococó, outro pouco bota-de-elástico, estilo fim do século XIX. (...) Seria injusto tratar de crime esta pobreza franciscana, apenas ridícula e afrontosa no que representa de presumida e olvidada do que é.”

Um embaixador ignorado

No seu diário, Aquilino continua as diatribes contra Chagas: “Este senhor (...) sopra com todos os foles à intervenção de Portugal na guerra.” “Temos pois que Chagas tomou a sério o anunciado papel de fornecedor do talho.”

Que situação é a de Chagas no corpo diplomático? “Mais que apagada, de autêntico joão-ninguém”, afirma o escritor. “Como diplomata, não sabem que ele existe. Veio a mobilização, veio a guerra, negociou-se forte e feio nas chancelarias, e não houve acontecimento que o não pusesse de boca aberta. As notícias, soube-as como eu, lendo-as por um ‘sou’ na ‘Presse’, na ‘Patrie’, no ‘Intransigent’, no ‘Temps’. Ninguém teve para com ele a atenção e natural deferência que são devidas a ‘partner’ de qualidade, consultando-o, trazendo-o ao corrente dos factos, solicitando-lhe o concurso.

Sir Francis Bertir, embaixador de Inglaterra, a cujo carro pretende jungir o pobre e humílimo país, homem que celebram pelo perfeito trato, delicadeza, fidalguia de maneiras e de índole, não se lembrou que devia uma palavra de entendimento ou sinal do jogo que ia fazer ao representante da nação aliada à sua. Nem um bafo filtrou da majestosa Embaixada Britânica para a pindérica Legação de Portugal, quanto mais pedido de concurso ou palavras concertadas sobre este particular! Não, Chagas não existe como ministro de Portugal. Mora em Paris um antigo panfletário, homem que teve o seu talento e a sua voga, admirável cavaqueador, que se dá ao delicioso passatempo de coleccionar espécies bibliográficas, velhos e ignorados alfarrábios que falam da sua terra, e se chama João Chagas. Foi revolucionário estouvado, desenvolto, porventura, mas poucos como ele se sacrificaram ao culto dos princípios. Deu-lhe o vento da fortuna e tornou-se insuportável, cabotino, mais malcriado do que era, megalómano inclusive.” Contra aquele que apelida de “Metternich exótico”, Aquilino contrapõe as suas ideias pacifistas: “Declarar a guerra, atirar com milhares de pobres diabos para o maneta, exaurir o úbere chupado da nação, que é isso se há três — são três — magníficos graais a conquistar: glorificar o nome português, sacudir a suserania do leopardo, pagar o nosso tributo à civilização? E vai a gente buscar a envolvente materialidade de tais objectivos e apenas encontra fumo.”

“Chegaram de Portugal os jornais que mandei vir de 4 de Agosto em diante. Por eles foi-me azado avaliar do eco que encontrou no jardim à beira-mar plantado o conflito europeu”, regista o diário do escritor a 24 desse mês. “A impressão que me deixaram é que os poderes constituídos e as classes influentes têm da guerra uma consciência anacrónica, quixotesca, tais aprendizes de história pelo livro de Pinheiro Chagas [escritor romântico do século XIX, não relacionado com o embaixador João Pinheiro Chagas]. Uma grande rixa à espada e a mosquete, com algum sangue à mistura, que vai acabar na epopeia. O holocausto dos labregos a quem os interesses da França ou da Inglaterra são tão alheios como a mim as unhas da imperatriz da China, os sacrifícios da economia pública anémica e lazarenta, as possíveis serpentes que a reacção venha a colocar no ninho da gralha vaidosa, que é a democracia, não contam. Um alfobre de faquires e engole-sabres, este delicioso Portugal.”

Chagas levará a água ao seu moinho, mas de forma que nem a ele próprio agrada. Afirma em Julho de 1916 no diário: “Entendo que é absolutamente necessário disputar Portugal à Inglaterra, mostrá-lo como um aliado dos Aliados e não só desta. (...) Embora isto pareça paradoxal, o inimigo de Portugal nesta guerra é a Inglaterra. À política inglesa não convém que Portugal tenha individualidade, hoje, como não teve no tempo de Napoleão. É preciso combater este velho propósito, afirmando mau grado a sua individualidade.”

E o que Chagas desde sempre temeu — que Portugal fosse “arrastado” para a guerra, sem vontade própria, foi o que acabou por se verificar, nota João B. Seabra. A apreensão dos navios alemães, ordenada a 23 de Fevereiro de 1916, a pedido da Inglaterra, originou a declaração de guerra alemã, a 9 de Março.
 
 
 
 
 

domingo, 21 de agosto de 2016




NO EXÍLIO



Transcrevemos, com a devida vénia, dois textos de Cristina Clímaco































 
 
 
 







 
 
 
 
 

sábado, 20 de agosto de 2016





André Combes

A Maçonaria francesa e a primeira guerra mundial