sábado, 28 de maio de 2016






"O 28 de Maio e a traição ditatorial"  -  Bernardino Machado














 
 
 

sexta-feira, 27 de maio de 2016







Porto - Rua da Constituição (à porta do Horto Dias Ferreira) - 1932 -
da esq. para a dir. - Maria Elzira Barros Machado, Maria e Belmira Mendes Machado,
António  Barros Machado e companheiro  não identificado 



Meu primo António Barros Machado  -  1














Num anterior blogue recordei meu primo António  Barros Machado  - clicar aqui - e fiz referências à sua actividade política como estudante  da Faculdade de Ciências do Porto. Quando  do lançamento do livro de Jaime Mendes - "Correspondência de Abílio Mendes com Abel Salazar" - falei no papel  que meu primo António teve nos acontecimentos académicos dos anos 30.





Do livro "Os Estudantes no Regime Fascista", editado pela Presidência do Conselho de Ministros - Comissão do Livro Negro sobre o Regime Fascista, transcrevo os seu depoimentos.





























 
 
 
 




quinta-feira, 26 de maio de 2016








O lançamento do livro de Jaime Teixeira Mendes   .  "Correspondência de Abílio Mendes com Abel Salazar"











No passado dia 23 tive a grande satisfação de estar na sede da Ordem dos Médicos, para colaborar no lançamento do livro - "Correspondência de Abílio Mendes com Abel Salazar"



"As minhas cordiais saudações e o desejo de uma boa tarde!

Começo por cumprimentar o Dr. Baptista Lopes da Editora Âncora.

Que bom ter a presença do Professor Doutor António Ventura e poder render a minha homenagem pública de gratidão a quem o estudo da História tanto deve.

Para o Dr. Jaime Teixeira Mendes um apertado e afectuoso abraço. O seu convite para aqui estar veio ao encontro dos meus encantos sobre um tema que me tem seduzido – o estudo da epistolografia em Portugal.

Desencadeou uma série de memórias da minha vida estudantil e profissional.

Mas a leitura de “Correspondência de Abílio Mendes com Abel Salazar” obriga-nos a pensar no futuro da nossa profissão de médico!

 

Quando há tempos o querido e saudoso amigo Vieira de Sá me obrigou a apresentar o seu livro “Cartas na mesa”, com a correspondência trocada com o Professor Bento de Jesus Caraça, senti a importância da divulgação de muitas cartas esquecidas nos espólios das bibliotecas. Andava também a digitalizar para o meu blogue – “Bernardino Machado” – a correspondência de meu Avô, que a Família Machado Sá Marques tinha depositado na Fundação Mário Soares. Fui então reler o livro de Andrée Cabrée Rocha – “A Epistolografia em Portugal”, onde podemos ler os seguintes períodos: - “A carta é um meio de comunicar por escrito com o semelhante. Compartilhada por todos os homens, quer sejam ou não escritores, corresponde a uma necessidade profunda do ser humano. Communicare não implica apenas uma intenção noticiosa: significa ainda “por em comum”, “comungar”. Lição de fraternidade em que as palavras substituem actos ou gestos, vale no plano afectivo como no plano espiritual, e participa, embrionariamente ou pungentemente, do mecanismo íntimo da literatura – dádiva generosa e apelo desesperado, ao mesmo tempo.”

Durante a leitura da “Correspondência de Abílio Mendes com Abel Salazar” relembrei as rebeliões estudantis de Lisboa e Porto em 1931, iniciadas na capital com a prisão do estudante da Faculdade de Ciências, Francisco Joaquim Mendes, presidente da Federação Académica. A greve às aulas nas Faculdades de Medicina e Letras, realizou-se em 25 de Abril, com uma manifestação de protesto contra aquela detenção que terminou com o assalto ao Ministério de Instrução Pública. Os estudantes conseguiram a libertação do seu dirigente associativo e este, acompanhado dos colegas, entre os quais se contavam Teófilo Carvalho dos Santos, Artur Santos Silva e José Magalhães Godinho, dirigiram-se ao Ministro.

Após saberem da agitação estudantil em Lisboa, sucederam-se, no Porto, manifestações no Instituto Industrial e no Instituto Superior do Comércio, e em 28 de Abril realizou-se na Faculdade de Medicina uma assembleia geral de alunos. Tal como em Lisboa a PSP invadiu essa Faculdade, prendendo Luís Camossa, Gomes de Almeida e António Barros Machado. A carga policial da PSP provocou três feridos graves, um dos quais, o estudante do Instituto Industrial, João Martins Branco, acabaria por falecer. O funeral realizado em 30 de Abril, no Porto, transformou-se numa grande manifestação contra a ditadura, na qual foram feridas a tiro pela polícia 17 pessoas.

Mostro-vos dois manifestos dos estudantes do Porto que encontrei entre a correspondência trocada, na altura, entre meu primo António Barros Machado e o nosso Avô, exilado na Galiza.

Em 5 de Julho de 1932, com a tomada de posse de Oliveira Salazar como Presidente do Ministério, começa uma nova era no regime político português!

É em 14 de Maio de 1935 que se assiste à primeira grande purga de Professores Universitários. É nessa “leva” que Abel Salazar é afastado do ensino!

É em 1935 que a cruz gamada é colocada na bandeira alemã.

Em 1936, ano em que Abílio Mendes termina o seu Curso de Medicina, assiste-se ao assalto das Associações Académicas. A Associação dos Estudantes da Faculdade Medicina de Lisboa é encerrada, depois da destruição das suas instalações, e a publicação da revista “Medicina” é interrompida. As Associações passam a ser dirigidas por Comissões Administrativas.

Para dar uma ideia do carácter fascista destas Comissões Administrativas, transcrevo, duma acta datada de 8 de Março de 1938, da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, os seguintes parágrafos:

“Carta de agradecimento à Deutcher Fichte = Bund - Hamburg – A AAEDP aproveita gostosamente o ensejo para saudar em Adolfo Hitler o maior pioneiro da luta anticomunista no Mundo Viva Salazar! Heil Hitler! Lisboa Ano XII da Revolução Nacional Março 8”

“…deferir o pedido do oficial legionário J. C. A. B. P. V. aluno desta Faculdade, que solicita uma colecção de panfletos anticomunistas e “nazis”.”

Quando em 1941 comecei a frequentar a Faculdade de Medicina, no Campo de Santana, a Associação Académica continuava a ser dirigida por uma Comissão Administrativa constituída por alunos nomeados pelas chamadas autoridades escolares.

Só em 1946 esta situação é alterada com a eleição, em Assembleia Geral de alunos, reunidos no Anfiteatro de Histologia, duma nova Direcção. Venceu por um voto a mais a lista de direita, em que predominavam colegas identificados como “católicos progressistas”, tendo como cabeça de lista o colega Daniel Cabeçadas.

No ano seguinte, em 1947, a Faculdade de Medicina é invadida pela PSP e pela PIDE, com agressão sobre o Director, Professor António Flores, e muitos dos seus alunos, que se tinham reunido para protestarem contra a prisão do colega Ramon de la Féria.

Pouco depois vem a segunda purga de professores universitários…

Começo em Outubro de 1947 a sentir já como profissional os problemas que os médicos viviam.

O exemplo dos colegas de formação humanista e ligados às lutas democráticas, como Abílio Mendes, contar com todos eles nas barricadas que se iam formando, deram alento, na década de 50, ao Movimento dos Novos e das Carreiras Médicas!

Quem ainda hoje se bate na defesa do Serviço Nacional de Saúde não esquece as dificuldades que tiveram de vencer!

O aparecimento deste livro de Jaime Teixeira Mendes é um importante contributo na conquista duma verdadeira sociedade democrática. Na página 14 lemos: “Pare-me necessário divulgar a actualidade do pensamento de Abel Salazar, num momento em que a Medicina, com a investigação de ponta e com o desenvolvimento de novas tecnologias, nos conduziu à subespecialização precoce e a um empobrecimento cultural confrangedor da maioria dos jovens clínicos.”  

A este propósito conto-vos o que se passou numa reunião em que estava presente. Desculpem a um nonagenário tantas lembranças…

Quando em 2001 se realizaram as comemorações da Fundação Nossa Senhora do Bom Sucesso, uma instituição de saúde materno-infantil, com quem colaborei enquanto trabalhei na APDP – Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal, estive presente na reunião inaugural que abordava o tema da importância dos avanços tecnológicos na evolução da medicina. Em determinada altura a Enfermeira Louise Cunha Teles, fundadora desta meritória obra assistencial e que presidia à sessão, mostrou o desejo de ouvir a minha opinião. Estava no meio da assistência e senti o olhar de todos os que me rodeavam. Pedi então que me deixassem relatar um episódio familiar.

Meu Pai foi professor de Física nos primórdios do século XX. Percursor do ensino experimental, tinha no Liceu Camões um laboratório onde os alunos aprendiam a manejar os instrumentos de física. Um dia teve que ir ao liceu acompanhado por minha irmã Maria Adelaide, que tinha cerca de 4 anos de idade. Lembrou-se então meu Pai de ligar a ampola de Crookes e pedir a minha irmã para colocar a sua “mãozinha” para lhe tirar a radiografia. Com grande espanto ao ver os ossos da mão, minha irmã olha para o Pai e pede: “mostre-me a alma!...”

Será que a tecnologia um dia nos mostrará a nossa alma?!

Quando deixei de trabalhar na APDP escrevi para um livro de homenagem a Mestre Ernesto Roma publicado pela Câmara Municipal de Viana do Castelo:

“Todos sabemos que a nova Antropologia, embora dando autonomia à vida espiritual, sabe fazer a sua ligação com a camada orgânica do ser humano. No estudo médico-antropológico dum quadro nosológico devemos analisá-lo segundo este ponto de vista convergente, valorizando os factores orgânicos, bioquímicos e genéticos, conjuntamente com as perturbações afectivas e ainda os valores éticos e socioculturais.

A Medicina não é um saber desinteressado, tem um fim e uma intenção – alcançar a saúde. É esta a sua política, melhor dizendo a sua ética.

Possuidores de recursos fantásticos concedidos pelas indústrias da tecnologia médica e da farmacologia, criámos um panorama de frieza, relegando para segundo plano, quando não o esquecemos, o apoio humano, o apoio mútuo, o amor e mesmo o sacrifício, não como sofrimento, mas como cedência do muito que podemos dar às pessoas, sem nos martirizarmos, mas pelo contrário, para nos sentirmos mais solidários. Hoje a Ciência dá-nos maiores possibilidades de amar o próximo com mais eficácia!”

Este seu livro, meu caro Jaime Teixeira Mendes, vem ajudar todos os que desejam a liberdade e a democracia e que lutam por elas.

 

Quando a Câmara Municipal de Lisboa atribuiu a uma rua da zona do Alto dos Moinhos o nome de seu Pai, homenageou o Cidadão, o Homem que adorava as crianças, que chegou a cuidar de três gerações da mesma família, o pediatra que registou no seu consultório 20 mil crianças, que sempre tratou os seus pequenos clientes, com uma visão holística da medicina, respeitando a sua própria individualidade.

No amor e respeito pelas crianças lembra-me meu Avô Bernardino no desenho de Amarelhe. E recordo também o livro que Bernardino Machado escreveu – “As Crianças - Notas dum Pai”.

E vem a propósito mencionar que no Museu Bernardino Machado o Professor Doutor Norberto Ferreira da Cunha inaugurou com a sua conferência “Abel Salazar e Bernardino Machado: contrastes e afinidades”, uma exposição de caricaturas de Abel Salazar.

Termino com mais um apertado abraço de gratidão ao Dr. Jaime Teixeira Mendes. A partir de hoje as nossas estantes de livros ficam enriquecidas."







 

quinta-feira, 19 de maio de 2016





A Assistência Religiosa na Grande Guerra  -  2



 



Corpo de Capelães Voluntários do CEP

 

 
Para cima 

A Formação do Corpo de Capelães

 
Padre José do Patrocínio Dias - Chefe do Corpo de Capelães Voluntários do CEP
Padre José do Patrocínio Dias - Chefe do Corpo de Capelães Voluntários do CEP
 
Num contexto político muito desfavorável à Igreja Católica Romana, o Cardeal Patriarca em representação do Episcopado Português, em 27 de Julho de 1916, fazia todos os esforços por conseguir chegar junto do Presidente da República um pedido para incorporar junto dos militares que se encontravam a preparar para irem para França, em Tancos, capelães para seguirem com o corpo expedicionário.
 
Só em 30 de Novembro de 1916 é que é legislado (decreto n.º 2869) uma base para a regulamentação da assistência religiosa a militares em operações de guerra e só em 18 de Janeiro de 1917, poucos dias antes da partida do primeiro contingente para França, é que se concretiza a regulamentação de assistência religiosa em operações de guerra (decreto n.º 2942).
 
Decreto n.º 2942
 
Artigo 1º - A assistência religiosa aos militares que a desejem e que façam parte de forças em operações de guerra, será dada por ministros portugueses das respectivas religiões:
 
a) Que na qualidade de militares ou equiparados, entrem na composição das forças em operações;
b) Que se ofereçam para acompanhar essas forças;
c) Que sejam antigos capelães militares.
 
Artigo 2º - Os generais comandantes das forças em operações de guerra permitirão que os militares membros das suas confissões a assistência religiosa a que eles desejarem, contanto que as manifestações de culto e as práticas culturais não perturbem os serviços de campanha e a disciplina das tropas. Os ministros não militares das diversas religiões que se ofereceram para acompanhar os combatentes foram equiparados a alferes, a mesma graduação equiparada que era dada aos médicos mobilizados.
 
As restantes forças militares aliadas tinha perfeitamente integrados serviços de assistência religiosa aos seus combatente e a  atitude do Governo Português, perante a resistência da formação do serviço de assistência religiosa no CEP, mereceu alguns reparos e criticas por parte dos britânicos. 
 
O número de capelães fixado pelo CEP foi de 15, numero que foi calculado de harmonia com a lei existente no anterior regime monárquico, que dirigia os serviços dos capelães do exército. A proporção estabelecida era de 1 capelão por cada 3.000 soldados. No entanto, o Ministro da Guerra Norton de Matos decidiu, em  Março de 1917, aceitar o alistamento de 30 capelães, com o objectivo de poder preencher quaisquer vagas que ocorressem por doença ou ferimento. 
 
Existindo a necessidade de existir um capelão que superintendesse a missão espiritual em França, a "Comissão Central de Assistência Religiosa em Campanha" (CCARC), depois de analisar os voluntários escolheu o Cónego da Sé da Guarda, José do Patrocínio Dias, para chefiar a missão.
 
O comandante do CEP General Tamagnini de Abreu, tal como a CCARC, considerou que o número de capelães era diminuto, o mesmo se verificava aos olhos dos ingleses que compreendiam o papel dos capelães em teatro de guerra, o que levou o Governo Português a não poder negligenciar a questão. 
 
No entanto a ideologia republicana, levou a manter sempre grande desconfiança sobre o trabalho efectuado pelos capelães, ao ponto de emitir a seguinte ordem aos Serviços Postais Militares:
 
"Ordem Serviço SPM, nº 49, de 27 de Agosto de 1917,
 
Por ordem de Sua Ex.ª o General [Tamagnini de Abreu], em virtude do determinado por sua Ex.ª o Ministro da Guerra [Norton de Matos], as forças que fazem parte do CEP não podem receber os seguintes livros: O livro do Soldado Português, pelo Padre José Lourenço de Mattos; O Manual do Soldado Português, adoptado pela Comissão Central de Assistência Religiosa em Campanha.
 
Porque o primeiro contém doutrina contra as Instituições vigentes e à Constituição Política da República e o segundo porque o seu título quase indica que todos os soldados portugueses são católicos o que não é verdade. V.Ex.ª aprenderá e remeterá a esta secretaria [Quartel-general do CEP] todos os exemplares que aí dêem entrada."(17)
 
 
  

Os Padres Voluntários

 
Lista dos ministros religiosos que se ofereceram, entre Janeiro e Fevereiro de 1917, como capelães para acompanharem o Corpo Expedicionário Português. Grupo dos Capelães enviados em Abril de 1917.
 
 
Álvaro Augusto dos Santos
 
 
Pároco em Lisboa
Ofereceu-se como capelão voluntário em 22/01/1917.
 
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
À data da Batalha de La Lys,  assegurava a assistência religiosa no Hospital de Sangue n.º 1
 
Avelino Simões de Figueiredo
 
Capelão em Lisboa
Ofereceu-se como capelão voluntário em 22/01/1917.
 
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
 
 
José do Patrocínio Dias
Cónego da Sé da Guarda
Ofereceu-se como capelão voluntário em 2/02/1917.
 
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
Chefe do Corpo.
À data da Batalha de La Lys,  assegurava a assistência religiosa no Hospital de Sangue n.º 2
 
 
Luís Lopes de Melo
Pároco da Sé Velha de Coimbra
 Em 22 de Março de 1917 desembarcou no P.D. Em 10 de Setembro é ferido acidentalmente por estilhaços de granada. Tomou parte na BATALHA DE LA LYS em 9 de Abril.
Foi louvado pelo Comandante do B.I. Nº9 "pela maneira zelosa e dedicada como tem desempenhado as funções de assistente religioso dos oficiais e praças deste Batalhão, porque assim tem dado sempre a maior demonstração de espírito de sacrifício que está animado" (O.S. Nº 223 do B.I. Nº 9 de 11de Agosto de 1917).
Louvado por Sua Exa. o General Comandante do CEP "pelas constantes provas de dedicação, energia e heróica conduta que demonstrou por ocasião do bombardeamento da Ambulância nº1, pela decisão e iniciativa como nos dias 9,10,11 e 12 de Abril se manteve na frente, percorrendo as estradas em busca dos feridos e conduzindo-os às Ambulâncias e ainda pelo denodado esforço com que contribuiu para o salvamento do material hospitalar. Ao tentar pela última vez em 12 de Abril penetrar no H.S.1, foi o carro que conduzia atingido pelas balas inimigas, mas só retirou quando teve a certeza de que na frente não existia soldado algum que precisasse de auxílio". (O.S.Nº 230 de 23 de Agosto).
Condecorado com a 2ª classe de CRUZ DE GUERRA.
Em 10 Abril de 1919 presente no Q.G.C. seguiu para os Hospitais da Bélgica em visita aos militares Portugueses ali internados. Em 24 de Junho, vai em diligência a Paris, sendo presente em 25 na Delegação Portuguesa de Paris. Louvado, por Sua Exa. o General Comandante do C.E.P., "pela inteligência, critério e dedicação profissional com que tem dirigido o serviço de assistência religiosa". (O.S. Nº 172 de 30 de Junho de1919).
Embarca em 7 de Julho para Lisboa a bordo do transporte "PEDRO NUNES" onde chega a 10 de Julho de 1919. (Extractos do Arquivo Geral, da Secção Especial do Corpo Expedicionário Português).
Regressado da Flandres com duas Cruzes de Guerra e depois com a Torre e Espada, era novamente a freguesia de Sé Velha que o esperava.
 
Ofereceu-se como capelão voluntário em 25/01/1917.
 
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
À data da Batalha de La Lys,  assegurava a assistência religiosa na Ambulância n.º 1
José Bernardino da Silva
Pároco de Moledo na Lourinhã
Ofereceu-se como capelão voluntário em 20/02/1917
 
Regressou a Portugal em VII/1917, por questões de saúde.
 
Foi Louvado em Ordem de Serviço do CEP (13)
Manuel Caetano
Pároco de Cós em Alcobaça
Ofereceu-se como capelão voluntário em 25/02/1917.
 
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
À data da Batalha de La Lys,  assegurava a assistência religiosa da 6ª Brigada de Infantaria (6)
Martim Pinto da Rocha
Pároco em Alpedriz em Alcobaça
Ofereceu-se como capelão voluntário em 11/02/1917.
 
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
Regressou a Portugal em VII/1917, por questões de saúde.
Manuel Rodrigues Silvestre
Pároco de Cela em Alcobaça
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
 
Manuel Pereira da Silva
Pároco de N.ª Senhora da Batalha no Porto
Ofereceu-se como capelão voluntário em 26/02/1917.
 
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
A 21 de Junho de 1917 o Capelão já se encontrava hospitalizado.
 
Regressou a Portugal em VII/1917, por questões de saúde.
Alexandre Pereira de Carvalho
Vila Verde em Felgueiras
Ofereceu-se como capelão voluntário em 22/02/1917.
 
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
Regressou a Portugal em VIII/1917, por ordem do CEP.
 
Reintegrado no CEP em Maio de 1918.
António Augusto de Almeida Coelho
Pena Verde em Aguiar da Beira
Ofereceu-se como capelão voluntário em 12/02/1917.
 
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
 
À data da Batalha de La Lys,  assegurava a assistência religiosa em Lestrem.
 
Foi louvado em Ordem de Serviço da 2ª Companhia de Sapadores, pelos altos serviços prestados. (13)
José Ferreira de Lacerda
Pároco de Milagres (Leiria)
Director da revista O Mensageiro
Ofereceu-se como capelão voluntário em 3/02/1917.
 
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
Regressou a Portugal em Setembro de 1917, por questões relacionadas com a paróquia.
 
Regressou à Flandres antes de La Lys e, à data da Batalha,  assegurava a assistência religiosa da 4ª Brigada de Infantaria (4)
 
Voltou a Portugal, onde se encontrava a a 16 de Maio de 1918. Voltou à Flandres em Julho de 1918.
 
Jacinto de Almeida Mota
Pároco de Trevões
Ofereceu-se como capelão voluntário em 16/03/1917.
 
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
Prestou serviço junto do Quartel-general da 4ª Brigada de Infantaria. No dia 9de Abril não se encontrava na frente de combate por ter sido incumbido de acompanhar um comboio de feridos a Portugal.(11)
 
Ângelo Pereira Ramalheira
Pároco de Vila em Ílhavo
Ofereceu-se como capelão voluntário em 3/02/1917.
 
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
À data da Batalha de La Lys,  assegurava a assistência religiosa da 5ª Brigada de Infantaria (5)
 
Em telegrama do comandante do Quartel-general do CEP, dirigido ao Chefe da assistência religiosa (P. José do Patrocínio Dias), datado de 22 de Novembro de 1918,  indica que o P. Ângelo Pereira Ramalheira e o P. António Tavares de Pina ficavam adidos à tripulação de navios que evacuavam doentes. (AHM - 1/35/CX726)
José Manuel de Sousa
Pároco de Gemeses em Esposende
Ofereceu-se como capelão voluntário em 10/12/1916. Quando se oferece já tinha 57 anos.
 
Só foi autorizado a partir para França em Abril de 1917.
 
À data da Batalha de La Lys,  assegurava a assistência religiosa na Ambulância n.º 7
Paulo Evaristo Alves
Pároco de Coimbra
Ofereceu-se como capelão voluntário em 27/01/1917.
 
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
Manuel Roiz Silveira
Pároco de Cela em Alcobaça
Ofereceu-se como capelão voluntário em 25/02/1917.
 
Seguiu  em Abril de 1917 para França.
 
Em 14 de Janeiro de 1918 é abatido ao corpo de Capelães por motivos de saúde.
Grupo dos Capelães enviados em Junho de 1917.
Joaquim Baptista de Aguiar
Pároco nas Oficinas de São José no Porto
Ofereceu-se como capelão voluntário em 12/03/1917
 
Seguiu  em Junho de 1917 para França.
 
Coube-lhe a missão de confortar espiritualmente o soldado João Augusto Ferreira de Almeida, fuzilado a 16 de Setembro de 1917, em Picantim.
 
António Rebelo dos Anjos
Pároco de Salreu em Matosinhos
 
 
 
 
Louvores Militares
 
C.E.P. - 2ª Div.6ª B.I.- R.E. 211- em 17/02/1918. Ao Sr. Chefe do Estado Maior da 2ª Div. 2 R. - Comunico a V.Ex. que o capelão graduado alferes António Rebelo dos Anjos Transferido ultimamente para a 2ª B.I., deu consecutivas provas de zelo invulgar em ministrar prontamente os socorros espirituais às praças desta Brigada quando na 1ª linha, especialmente por ocasião de bombardeamentos, mostrando também por tais ocasiões o desprezo completo pela própria vida, pois no cumprimento do seu dever o não detinha o perigo por mais eminente que se lhe apresentasse. O Comandante Felisberto Alves Pedrosa Coronel.
Em campanha, 24 de Fevereiro de 1918.
 
C.E.P. 2ª Div.6ª B.I. Em campanha, 24 de Fevereiro de 1918 - Ordem n.º 36, Art. 1º, LOUVOR - Que Sua Ex. Coronel Comandante interino da Divisão, em seu despacho lançado na nota desta Brigada, n.º 211/R.E. de 17 de Outubro de 1918, determina que seja louvado nesta ordem, visto o procedimento louvável ter tido lugar durante o tempo que serviu nesta Brigada, o capelão graduado alferes António Rebelo dos Anjos, pelas consecutivas provas de zelo invulgar, em ministrar prontamente os socorros espirituais Às praças desta Brigada, quando na 1ª linha, muito especialmente, por ocasião de bombardeamento, patenteado sempre o desprezo completo pela própria vida, pois o cumprimento do seu dever o não detinha o perigo por mais eminente que se lhe apresentasse. O 2º comandante Francisco José Pinto, Tenente-coronel. Em campanha 25 de Fevereiro de 1918.
 
 
 
Ofereceu-se como capelão voluntário em 26/02/1917
 
Seguiu em Julho de 1917 para França.
 
Em Outubro ofereceu-se para acompanhar o IV Batalhão (ex-Infantaria 23), na ofensiva em direcção à Alemanha. (14)
 
No relatório do Major Helder Ribeiro, de 18 de Novembro de 1918, Aditamento 1º, indica:
"...não devo deixar de citar também em especial o Capelão equiparado a Alferes Pe. Rebelo dos Anjos, o primeiro oferecido para fazer parte do [IV] Batalhão no caso de lhe ser designada uma missão especial na frente, sacerdote exemplar numa alma forte de português e que pela sua acção persuasiva e cheia de honestidade e patriotismo foi um dos mais úteis obreiros na reeducação moral do Batalhão."(23)
 
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Caixa PT/AHM/DIV/35A/1380
 
Chegou a França a 13 de Julho de 1917 e foi incorporado na 6ª Brig. Inf.
 
A 10 de Fevereiro de 1918 foi transferido para 2ª Brig. Inf.
 
A 1 de Abril de 1918 apresentou-se no Q.G. da Base
 
A 4 de Abril é colocado no Hospital da Base n.º 2, com acumulação de serviço no Hospital da Base n.º 1.
 
 
A 12 de Maio de 1918 recebeu ordem de marcha do H.B. 2 para Calais, em serviço de assistência religiosa junto das tropas aí acantonadas.
 
A 16 de Maio regressou ao H.B. 2 onde prestava serviço de assistência religiosa.
 
A 8 de Outubro 1918 passou a incorporar os efectivos do IV Batalhão do Major Hélder Ribeiro (24)
 
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Em 29/11/1917 encontrava-se como Capelão da 3ª Brigada de Infantaria.
 
O Alferes Assis Gonçalves conta-nos que a 1 de Dezembro de 1917, à tarde assistiu a um enterro, com cortejo fúnebre em silêncio de dois mortos em combate até ao cemitério dos portugueses em Laventie.
 
Foi o Alferes-capelão Anjos que conduziu o cortejo fúnebre dos dois soldados portugueses mortos, tendo encomendado as suas almas a Deus. Durante a cerimónia a artilharia alemã não deixou de bombardeara zona, tendo três granadas silvado sobre o local e caído a algumas centenas de metros do cemitério.
(27)
 
 
 
António Tavares de Pina
Dornelas em Aguiar da Beira
Ofereceu-se como capelão voluntário em 29/01/1917.
 
Seguiu em Junho de 1917 para França.
 
Em telegrama do comandante do Quartel-general do CEP, dirigido ao Chefe da assistência religiosa (P. José do Patrocínio Dias), datado de 22 de Novembro de 1918,  indica que o P. Ângelo Pereira Ramalheira e o P. António Tavares de Pina ficavam adidos à tripulação de navios que evacuavam doentes. (AHM - 1/35/CX726)
Carlos Moreira Coelho
Carvalhosa e Banho em Marco e Canaveses
Ofereceu-se como capelão voluntário em 16/03/1917.
 
Seguiu em Junho de 1917 para França.
 
António de Almeida Correia
Aguiar da Beira
Ofereceu-se como capelão voluntário em 17/02/1917.
 
Seguiu em Junho de 1917 para França.
Manuel Francisco dos Santos
Pároco do Seminário dos Meninos Desamparados em Campanhã, Porto
Ofereceu-se como capelão voluntário em 23/02/1917.
 
Seguiu em Junho de 1917 para França.
 
O capelão Manuel Pereira da Silva foi hospitalizado e repatriado, sendo substituído pelo capelão António Rebelo dos Anjos. O capelão Martim Pinto da Rocha por não apresentar saúde que lhe permitisse aguentar o esforço físico do serviço nas trincheiras foi repatriado e substituído pelo capelão António Tavares de Pina.
Em Outubro de 1917 o capelão Alexandre Pereira de Carvalho foi expulso do CEP, por ordem do Ministro da Guerra, Norton de Matos, na sequência de uma troca de correspondência, considerada menos respeitosa.
 
Existiam outros padres no CEP, que se encontravam entre os soldados e que não se tendo dado a conhecer ao Exército como tal, a CCARC, insistia junto do Ministro Norton de Matos, para os colocar no Corpo de Capelães, evocando razões de falta de capelães: para duas Brigadas, uma das ambulâncias da primeira linha e para os hospitais da Base.
 
Em Janeiro de 1918, Sidónio Pais, que acumulava o Ministério da Guerra, fundamentando a sua decisão pelo pedido recebido do comandante do CEP, Tamagnini de Abreu, permitiu o "recrutamento" de novos capelães voluntários, Oficio n.º 141, de 16 de Maio de 1918.
 
A 13 de Abril de 1918, após La Lys, o Quartel-general Territorial, 2ª Repartição, indicava que o número de Capelães no CEP devia de ser 36, conforme cálculo de Julho de 1917, e que agora (13 de Abril) apenas se encontravam 11 e que o número ia passar para 8, porque três iam acompanhar o transporte de feridos para Portugal. Mesmo assim, dos 8 quatro encontravam-se fisicamente esgotados: P. José Manuel de Sousa com 58 anos, o P. José Tavares de Pina com bronquite crónica, O P. António Rebelo dos Anjos e o P. Álvaro Augusto dos Santos apresentavam um esforço sobre-humano. (10)  
 
 
Da esquerda para a direita o alferes-capelão Álvaro Augusto dos Santos e o Alferes-capelão Avelino Simões de Figueiredo,
 no Cais de Alcântara em Março de 1917, quando do embarque para França. 
Ilustração Portugueza, série II, nº. 577, Lisboa, 12 de Março de 1917, p. 213.
 
De Maio a Julho de 1918 partiram os seguintes capelães para França: 
Abel Pereira de Almeida
 
Embarque em Maio de 1918
José Francisco Faustino
 
Embarque em Maio de 1918
António Rodrigues Bartolomeu
 
Embarque em Maio de 1918
Jaime de Gouveia Barreto
 
Embarque em Maio de 1918
José Dias Rodrigues
 
Embarque em Maio de 1918
Avelino Simões de Figueiredo
 
Embarque em Junho de 1918
(Regresso a França)
José Ferreira de Lacerda
 
Embarque em Junho de 1918
(Regresso a França)
Jacinto de Almeida Mota
 
Embarque em Junho de 1918
(Regresso a França)
Manuel João Gonçalves
 
Embarque em Julho de 1918
Alexandre Pereira de Carvalho
 
Embarque em Julho de 1918
Manuel Francisco dos Santos
 
Embarque em Julho de 1918
Manuel Frazão
 
Embarque em Julho de 1918
João Augusto de Sousa
 
Embarque em Julho de 1918
Joaquim Antunes Pereira dos Santos
 
Embarque em Julho de 1918
António Alves Pacheco
 
Embarque em Julho de 1918 
(Integrado no BI 15 CEP)
Manuel Ramos Pinto
 
Embarque em Julho de 1918
 
Em Fevereiro 1918 partiram os seguintes capelães para Moçambique:
 
Manuel Tavares da Silva
 
 
 
Embarque em Fevereiro de 1918 para Moçambique, no vapor "Moçambique"
 
João Luís Esteves
São Pedro d'Arcos em Ponte de Lima
Ofereceu-se como capelão voluntário em 12/03/1917.
 
Embarque em Fevereiro de 1918 para Moçambique, no vapor "Moçambique"
Jorge Duque Nogueira    Embarque em Fevereiro de 1918 para Moçambique, no vapor "Moçambique" 
José da Silva Moroso Pároco de Vila Chã em Alijó
Ofereceu-se como capelão voluntário em 10/03/1917.
 
Embarque em Fevereiro de 1918 para Moçambique, no vapor "Moçambique" 
Artur Tavares Dias Chãs de Tavares em Mangualde
Ofereceu-se como capelão voluntário em 27/02/1917.
 
Embarque em Fevereiro de 1918 para Moçambique, no vapor "Moçambique" 
Alfredo Bento da Cunha  O chefe dos Capelães militares em Moçambique. Embarque em Fevereiro de 1918 para Moçambique, no vapor "Moçambique" 
 
 
E ainda, em Julho de 1918, já ao abrigo do decreto n.º 4489, de 4 de Junho de 1918, integrados no exército, com os vencimentos correspondentes ao posto e onde abria o âmbito da assistência religiosa aos hospitais, navios, asilos ou qualquer estabelecimento onde existissem doentes, feridos, mutilados ou repatriados de guerra, e ainda, permitia aos generais comandantes de forças em operações de guerra, que transferissem para o serviço religioso os oficiais e praças que considerassem necessários.
 
Ainda em Julho, o Padre José Maria da Costa Parente, Alferes miliciano no CEP, aproveitou a oportunidade permitida com o decreto n.º 4489, e dirigiu um requerimento a solicitar a sua deslocação para o serviço de assistência religiosa, que foi deferido.
 
Existiram numerosos requerimentos de Sargentos milicianos que pediram para passar para o Corpo de Capelães, mas que foram sistematicamente indeferidos, no entanto com a indicação de que podiam prestar assistência religiosa nas unidades em que se encontravam mobilizados.  Refira-se o caso do 2º sargento miliciano da 9ª Comp. do Regimento Infantaria de Vila Real, que pediu para servir como Capelão na Expedição a Moçambique, em 17 de abril de 1917, e cujo requerimento foi indeferido com as condições indicadas anteriormente.
 
Em Agosto de 1918 partiram mais 3 capelães para França.
 
Domingos Afonso do Paço
Pároco de Viana do Castelo
 
Casimiro Rodrigues de Sá
Pároco de PadroneloOfereceu-se como capelão voluntário em 23/05/1918.Seguiu para França em 14 de Junho de 1918.
 
José do Pinho
 
Pároco de Penafiel
 
 
 
Foto de Grupo - Corpo de Capelães CEP - Flandres 1918
 

A Comissão Central de Assistência Religiosa em Campanha

 
Logo que Portugal passou a ser uma potência beligerante activa ao alado dos aliados no teatro de guerra europeu, a imprensa católica fez uma campanha a favor de incorporar no Exército português um Corpo de Capelães voluntários, que acompanhassem os nossos soldados em campanha e lhes prestassem os necessários socorros religiosos.
 
Com a publicação do Decreto 2942, em Janeiro de 1917, já após a partida do primeiro contingente para França, o Corpo de Capelães foi organizado, Os Capelães voluntários foram graduados em alferes equiparados, sem direito a soldo, situação que se reverteu após Dezembro de 1917, com o Governo de Sidónio Pais que ordenou que os Capelães fossem abonados com o soldo de alferes. Para suprir esta situação foi constituída em Lisboa, sob a presidência do Cardeal Patriarca D. António Mendes Belo, uma Comissão Central de Assistência Religiosa, com o fim de angariar fundos para subsidiar os capelães e custear as despesas de culto e assistência.
 
A Comissão Central de Assistência Religiosa (CCAR) pediu a bênção do Santo Padre Papa Bento XV para os capelães portugueses, que a concedeu em conjunto com amplas faculdades para exercerem o seu ministério. A CCAR fez um segundo pedido ao Santo Padre, após os duros combates de Abril de 1918 em que milhares de portugueses foram feitos cativos em campos de prisioneiros na Alemanha, para que Ele mitigasse na medida do possível a sorte dos nossos compatriotas.
 
"Santíssimo Padre. - A Comissão Central de Assistência Religiosa de Lisboa, tem já feito bastante para dar aos soldados portugueses, nos campos de batalha, o apoio e as consolações religiosas, sente, porém, quanto os seus esforços são insuficientes para consular os prisioneoros que gemem nos campos de concentraçao, que sofrem privações de toda a sorte, a aflta absoluta de conforto, todos os horroees, enfim, dum duro cativeiro. A comissão reconhece que lhe é mister um auxílio sobrehumano, e é com a mais humilde e com a mais inteira confiança que se dirige ao Pai Comum dos Fieis ao princípe da Paz cuja auctoridade é já universalmente reconhecida e respeitada. É em nome de tantas mães angustiadas, de tantas esposas desoladas que implora a intercessão de Vossa Santidade a favor dos vossos filhos portugueses certa de que Vossa Santidade saberá mitigar-lhes os sofrimentos materiais e alcancar-lhes os socorros religiosos que são o alimento do espírito. Dignai-vos, Beatísssimo Padre, dispensar-nos a Vossa Bênção Paternal e aceitai a expressão da nossa dedicação e obediência.
Cardeal Patriarca de Lisboa." (18)
 
As amplas faculdades concedidas aos capelães militares portugueses enquanto o tempo que durasse a guerra, referiam-se às confissões, à celebração da Missa, às bênçãos e à recita do ofício. (19)
 
Missa em Ambleteuse. À direita do Padre encontra-se o Alferes-capelão Joaquim Baptista de Aguiar. (in Pedro de Freitas, "As Recordações da Grande Guerra", 1935, p.64)
 
 

O Patriotismo dos Capelães

 
Na obra de António Granjo, "A Grande Aventura", no capítulo que dedica ao Tenente Grilo, remarca a situação dos cadáveres dos militares portugueses estarem a ser cobertos com a bandeira inglesa. Mas mais importante é a referência à alteração do procedimento, em que se passou a cobrir os cadáveres dos militares portugueses com a bandeira portuguesa, devido à intervenção dos capelães portugueses, indicando que que estes o tinham imposto.  António Granjo também remarca que o Estado não soube compreender o trabalho e o sacrifício que os capelães viveram no "front".
 
"...um padre português, que, tendo-se inutilizado no front, regressou a Portugal não lhe dando o Estado nem a residência, nem o registo paroquial de que se apossara quando ele partira como capelão e onde protestara contra o facto de os os cadáveres dos soldados portugueses serem cobertos com uma bandeira estrangeira" (9)
 
António Granja não refere o nome do Capelão mas pode estar a referir-se ao Padre Luís Lopes de Melo que foi ferido em Outubro de 1917 e que  esteve em Portugal para recuperação dos ferimentos sofridos na linha da frente ao ter sido apanhado por uma explosão que o feriu num braço e num olho.
 
Augusto Casimiro levou o seu IV Batalhão (ex-Infantaria 23) reconstruído até à frente de combate e a 8 de Novembro de 1918 encontrava-se na  linha da frente junto a Warchinles-Tournai. Nessa noite recebeu uma carta e uma garrafa de rhum de uma ordenança do 148ª Brigada Inglesa. Junto aos seus companheiros Alferes-capelão António Rebelo dos Anjos, o Capitão-médico Fonseca e o Alferes Carmo, abriu a carta, beberam o rum que o ordenança lhe deixara e dançaram os quatro "numa sarabanda de alegria!", chegara a notícia do Armistício. (15)
 
Os capelães estiveram praticamente todo o tempo em França sem qualquer licença para virem a Portugal em descanso, situação que foi documentada nas memórias do General Tamagnini, "Os Meus três Comandos", quando afirma que deixou de executar ordens da Secretaria da Guerra que beneficiavam uns oficiais em detrimento de outros e onde também afirma que questionou essa Secretaria por razões como a aplicação de licenças aos Capelães e que esta não lhe respondeu(26)
 
A religiosidade dos soldados e oficiais portugueses no Front, demonstrava que todas as tendências ateias tinham ficado em Portugal após atravessar a fronteira. Nas trincheiras a eloquência dos canhões alemães produzia uma convincente filosofia que fazia abandonar a descrença. O Alferes Assis Gonçalves em Novembro de 1917 afirma que até então não tinha encontrado qualquer soldado ou oficial que desmentisse esta sua ideia. Também reafirma a forma patriótica como actuava o Alferes-capelão António Rebelo dos Anjos. (28)
 
 
 
Grupo de Damas Enfermeiras da Cruz Vermelha Portuguesa acompanhadas por dois capelães do exército português: o alferes–capelão Joaquim António Pereira dos Santos à esquerda
 e o alferes–capelão Manuel Frazão à direita,
 Ilustração Portugueza, série II, nº. 644, Lisboa, 24 de Junho de 1918, p. 497.
 
 
 
 
 

Os Capelães em Combate - La Lys

 
Se na verdade os capelães não estiveram tanto tempo nas trincheiras como os restantes soldados, viveram com frequência as condições que estes partilhavam, não só nos longos períodos de espera como em situações de combate. Ali procuravam assistir os feridos e os desesperados que sofriam de males físicos e psicológicos.
 
Quando da Batalha de La Lys encontravam-se na primeira linha de trincheiras, em apoio aos combatentes do CEP os capelães Luís Lopes de Melo, António Augusto de Almeida Coelho e José Manuel de Sousa. No caso do Padre José Manuel de Sousa, foram os médicos da Ambulância n.º 1 que  solicitaram ao capelão chefe, Padre José do Patrocínio Dias, que o mantivesse no serviço, devido à preciosa ajuda que prestava.
 
No relatório sobre a assistência religiosa enviado ao Estado Maior do Exército, pelo chefe doa capelães militares José do Patrocínio Dias, sobre a actuação dos capelães em campanha, durante os acontecimentos de 9 de Abril, foi escrito:
 
"na frente encontravam-se 6 capelães, porque no dia 7 de Abril foi conhecido que a 1ª Divisão ia ser trocada pela 2ª Divisão os capelães, por serem poucos, receberam ordens para serem transferidos de imediato para a 2ª Divisão a fim de garantirem a assistência religiosa na linha da frente."
 
Encontravam-se distribuídos por: Padre Ferreira de Lacerda (4ª Brigada), Padre Ângelo Pereira Ramalheira (5ª Brigada), Padre Manuel Caetano (6ª Brigada), Padre António de Almeida Coelho (em Lestrem), Padre Luís Lopes de Melo (Ambulância nº1), Padre José Manuel de Sousa (Ambulância n.º7), Padre Álvaro dos Santos (Hospital de Sangue n.º 1) e Padre José do Patrocínio Dias (Hospital de Sangue n.º 2).
 
Na sua globalidade o Corpo de Capelães Voluntários do CEP foram publicamente louvados na Ordem de Serviço do Corpo n.º 230 de 23 de Agosto de 1918, "pelo espírito de desinteresse, abnegação e sacrifício com que se tem dedicado ao desempenho da sua missão". Existe, ainda, outra referência à "serena e heróica conduta de alguns dos seus membros no campo de batalha, especialmente no combate de 9 de Abril, afrontando o perigo, percorrendo as primeiras linhas e animando os soldados com as suas palavras e exemplos e ainda pelos actos de humanitário altruísmo com que nos hospitais e ambulâncias se dedicaram aos feridos e doentes, havendo sido preciosos auxiliares dos médicos".
 
O Padre Ângelo Pereira Ramalheira foi louvado na Ordem de Serviço da Brigado do Minho n.º 178 de 2 de Julho de 1918, e posteriormente condecorado com a Cruz de Guerra de 4ª Classe, "por ter assistido com a maior serenidade e sangue frio a um ferido "in articulo mortis", demorando-se assim mais de uma hora sob a acção do bombardeamento de 9 de Abril, só abandonando o local quando o soldado morreu".
 
O Padre Manuel Caetano foi louvado na Ordem de Serviço do CEP, n.º 151, de 5 de Junho de 1918, e posteriormente condecorado com a Cruz de Guerra de 2ª Classe e feito Cavaleiro da Ordem de Cristo com palma, "porque durante a batalha de 9 de abril mostrou dedicada coragem e assombroso sangue frio, oferecendo-se depois de desempenhar dedicadamente os serviços do seu ministério, para transmitir ordens através de zonas bombardeadas e de estradas varridas por metralhadoras inimigas". Foi também quem salvou a vida do Capitão Napoleão e do Alferes Leote do Rêgo, filho do comandante da Marinha de Guerra Daniel Leote do Rêgo.
 
O Padre José Manuel de Sousa foi louvado na Ordem de Serviço do CEP, n.º 183, de 7 de Julho de 1918, por tem em 9 de Abril, e posteriormente condecorado com  condecorado com a insígnia de Oficial da Ordem de Cristo com palma, por "estando de serviço na ambulância n.º 7, demonstrou qualidades extraordinárias de decisão, energia e coragem, procurando, por todos os meios, socorrer e evacuar os feridos, e indo voluntariamente aos lugares mais perigosos no desempenho da sua missão".
 
O Padre Luís Lopes de Melo foi louvado na Ordem de Serviço do CEP, n.º 230, de 23 de Agosto de 1918, e posteriormente condecorado com a Cruz de Guerra de 2ª Classe e feito Cavaleiro da Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito, "pelas constantes provas de energia e heróica conduta que demonstrou por ocasião do bombardeamento da ambulância 1; pela decisão e iniciativa como nos dias 9, 10, 11, e 12 de Abril se manteve na frente, percorrendo as estradas em busca de feridos e conduzindo-os às ambulâncias e ainda pelo denodado esforço com que contribuiu para o salvamento do material hospitalar. Ao tentar pela última vez em 12 de Abril penetrar no Hospital de Sangue n.º1 foi o carro que o conduzia atingido pelas balas inimigas, mas só retirou quando teve a certeza de que na frente não existia soldado algum que precisasse de auxílio". Em Outubro de 1917 esteve em Portugal para recuperação, de ferimentos sofridos na linha da frente ao ter sido apanhado por uma explosão que o feriu num braço e num olho. Foi também louvado pelo serviços prestados no Batalhão n.º 9.
 
O Padre José do Patrocínio Dias foi louvado e condecorado com a Cruz de Guerra de 2ª Classe e a medalha de prata da classe de bons serviços em campanha, em 22 de Julho de 1919, pela acção tomada em 9 de Abril, quando o pessoal em serviço no Hospital de Sangue n.º 2, em Venant, retirou para a retaguarda e ele permaneceu ali com dois soldados, fazendo curativos enquanto não foi estabelecido o posto com pessoal médico. Procurou alimentação para os feridos e estropiados, tratando da sua evacuação. Somente abandonou o hospital no dia 12 de Abril, quando, nas imediações, já não se encontrava qualquer português.
 
O Padre Álvaro Augusto dos Santos foi condecorado com a insígnia de Oficial da Ordem de Cristo com palma, por no dia 9 de Abril, durante o bombardeamento cujos estilhaços atingiram o Hospital de Sangue n.º 1, conformou e animou os doentes até serem evacuados. Já na retaguarda, ofereceu-se para coadjuvar os serviços de salvação do material sanitário. Demonstrou "alta compreensão dos seus deveres, grande dedicação pelo serviço, aliado à serenidade, coragem e abnegação"(2)
 
O Padre António Rebelo dos Anjos foi condecorado com a Cruz de Guerra, "pelo completo desprezo pela vida com que socorreu feridos na 1ª linha"  (Lavantie) e louvado pelo serviço prestado ao comando do IV Batalhão (ex-Infantaria 23), na moralização da unidade para a marcha para a frente de combate (Ordem da Divisão, 24 de Novembro de 1919). (12)
 
O Padre José António Tavares Pina foi condecorado com a Cruz de Guerra, "pelo modo distinto como soube conciliar as suas funções religiosas com as de bom português, catequizando cívica ou patrioticamente os soldados, socorrendo-os debaixo dos maiores perigos e não tendo descanso a proporcionar-lhes distracções". (12)
 
O Padre Jacinto de Almeida Mota foi condecorado com a Medalha Militar de Bons Serviços, "pelo alevantado espírito de sacrifício, desinteresse e abnegação com que sob os violentos bombardeamentos do 1º trimestre de 1918 se conservou junto dos soldados, exercendo o seu ministério e alentando-os com palavras e exemplos, e retirando só quando já inteiramente impossibilitado recebeu intimação formal para o fazer". (12)
 
O Padre Avelino Simões de Figueiredo recebeu a Ordem de Cavaleiro de Cristo, "pelo zelo com que sempre procurou levantar o patriotismo dos soldados". Em França abriu uma casa de recreio e de instrução para apoio aos soldados. (13)
 
 
 

Padres Prisioneiros de Guerra

 

Nas suas memória, o Major Francisco José de Barros, recorda ter encontrado, em Rastatt, um Alferes miliciano de infantaria chamado Ferreira que era Padre, que foi capturado em Levantie, dia 10 de Abril de 1918.
 
O Padre Ferreira durante o seu cativeiro fez todos os possíveis para continuar a dar assistência religiosa aos prisioneiros que precisassem, tendo mesmo conseguido a instalação de um pequeno altar sobre uns caixotes, duas velas colocadas em garrafas servindo de castiçais, e dois pequenos crucifixos. Este conseguiu, ainda, junto de um padre alemão que prestava serviço no campo de prisioneiros de Rastatt, que lhe oferecessem uns paramentos. O maior obstáculo era a falta de vinho para a missa. (7)
 
Quando em Julho de 1918 os oficiais portugueses começam a ser transferidos para o campo de prisioneiros de Breesen em Mecklemburg, o Padre Ferreira não os seguiu, como se pode verificar da lista de oficiais presentes no campo de prisioneiros de Breesen, que foi enviada pelo Tenente-coronel João Carlos Craveiro Lopes à comissão Central de Assistência aos Militares Portugueses prisioneiros de guerra. (8)
 
Outro Padre, também não identificado no rol dos voluntários do Corpo de Capelães, é o Alferes Padre José Alves Pereira que se encontrava cativo em Essen. Na caixa (AHM, D1/S35/CX1333) encontra-se um postal seu dirigido à "Pietas Suíça", com o seguinte texto:
 
"Peço a V.Exas a fineza de que participem o modo como os presos portugueses poderão comunicar com as respectivas famílias. Sei de presos que até à data ainda não obtiveram notícia alguma das suas famílias, e no entanto têm escrito várias vezes. De V.Exas Alf. P. José Alves Pereira, essen 11-11-917"
 

O Contributo dos Capelães na Reorganização dos Batalhões de Combate

 
No último período do CEP,  de Agosto a Novembro de 1918, em que se deu a reorganização dos Batalhões para a ofensiva final, o zelo com que o corpo de capelães e em particular a zelo com que o Padre José do Patrocínio Dias, participaram na reconstrução moral e do espírito de corpo dos Batalhões foi extremamente importante. O primeiro Batalhão pronto para combate foi o do Regimento de Infantaria n.º15, comandado pelo Major Ferreira do Amaral, que não deixou de dispensar um louvor ao trabalho efectuado pelo capelão da assistência religiosa, José do Patrocínio Dias.
 
Em Setembro, começa-se a sentir o resultado do trabalho da "Assistência Religiosa" no CEP. Missas, devoções da tarde, alocuções, convivência amiudada nas horas de repouso, que fizeram reconstruir o moral e o espírito de combate. E Outubro o Batalhão 15 foi o primeiro a estar pronto a entrar em combate, seguindo-se o Batalhão 23 e o Batalhão 9. Com a reorganização passou a estar presente um capelão por batalhão, proporção muito diferente de um capelão por brigada.(1)  
 
 
A Banda de Música do Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro
 
No início de Agosto de 1918 o Capelão Alferes equiparado, Padre Avelino de Figueiredo, ingressou no Batalhão para auxiliar a Banda de Música. É apresentado como um excelente espírito, bom carácter, muito amador de música, auxiliando como podia a organização da Banda de música.
 
Preocupado com a escassez de musicas no repertório da Banda de Música, usou os seus conhecimentos pessoais e influência para conseguir do Comando-Geral do CEP, em Ambleteuse, que o tenente chefe de música lhes facultasse algumas pautas. Foram emprestadas as pautas da "Rapsódia Transmontana", "O Rei que rabeou", uma selecção de fados e dois ordinários.
 
No final de Agosto o Capelão Avelino de Figueiredo é transferido para outra unidade(20).
 
 
 
A Assistência Religiosa em Moçambique
 
O chefe da assistência religiosa em Moçambique o Alferes-capelão Padre Alfredo Bento da Cunha, no seu relatório sobre a assistência religiosa prestada na Expedição de Moçambique em 1918, no preâmbulo do mesmo afirma:
 
«A assistência religiosa é tanto necessária ao soldado quanto ele a reclama, pela educação que recebeu como pelos sacrifícios que a Pátria dele exige» (21)
 
O Tenente Mário Costa, no seu livro "Cartas de Moçambique" indica que os capelães partiram a 7 de Março de 1918, no vapor "Moçambique", para Moçambique, no entanto nos documentos que se encontram no Arquivos Histórico Militar, de Lisboa, D1/S35/CX1243, Arquivo CEP - Assistência Religiosa, há a indicação que partiram em Fevereiro de 1918.
 
Quando chegaram a Moçambique desembarcaram em Mocímboa da Praia, então a base de operações do Exército português, e foram distribuídos da seguinte forma: para Nacature o Padre José Duque Nogueira, para Muirite o Padre José da Silva Moroso, para Moçambique o Padre Artur Tavares Dias e em Mocímboa da Praia ficou o Padre Alfredo Bento da Cunha Capelão-chefe.
 
Em Mocimboa da Praia começou o seu trabalho por apoiar as cinco grande enfermarias de soldados, como a enfermaria de sargentos e a enfermaria de oficiais. Ao todo encontrou perto de 350 militares internados.
 
Uma das missas campais que foram rezadas, foi uma a 27 de Maio de 1918, por alma dos soldados mortos no combate da travessia do Rovuma em 1916, à qual assistiram quase dos os militares que se encontravam em Mocimboa da Praia. Um outro papel da assistência religiosa verificou-se quando o Padre Alfredo Bento da Cunha depôs em tribunal militar em defesa de um militar, tendo conseguido a sua libertação.
 
Registasse que os que faleceram no hospital todos tiveram assistência religiosa, excepto um, que a não pediu. Mesmo de noite, sempre que o chamavam, juntava-se ao médico para acompanhar o doente nos seus momentos finais. (22)
 
 
 
  
 

Corpo de Capelães: Efectivos totais 28, mortos em combate 0

 
1917-1918
Mortes
Em Combate
Por doença (outras)
Pneumónica
Total
Capelães
0
0
0
0
 
Nota: Verificou-se 1 ferido por fogo inimigo em La Lys (Alferes-capelão Luís Lopes de Melo) .
 
 

O Reconhecimento Pessoal de Alfredo Barata da Rocha

 
Na sua obra "Névoa da Flandres" em verso, dedica dois textos com dedicatórias a Capelães do Corpo Expedicionário Português. O primeiro texto ao Alferes-capelão Padre Jacinto da Almeida Mota, "Mês da Nossa Senhora", escrito em Maio de 1917, e o segundo ao Alferes-capelão Padre José do Patrocínio Dias, "Nossa Senhora da Trincha", escrito em 1918. (3)
 
O Tenente Alfredo Rocha foi ferido duas vezes em campanha na Flandres. Formou-se em medicina em 1919, na Universidade do Porto, foi poeta e esteve ligado à fundação do Núcleo do Porto da Liga dos combatentes da Grande Guerra, do qual foi o seu primeiro presidente.
 
 
 
MÊS DE NOSSA SENHORA
 
A Natureza abriu-se num sorriso.
Coram as flores; destaca mais a hera.
Parece agora a terra um paraíso:
Nossa Senhora trouxe a primavera...
 
Chilreiam outra vez as andorinhas.
Quando o Calor morrer, hão de emigrar.
A elas se assemelham as dores minhas
Que, se deixam meu peito, é para voltar...
 
Para conseguir adormecer o sol,
Oculto na deveza, um roxinol
Ergue um canto suave de elegia...
 
Ouve-se, ao longe, o ralho das granadas...
Cortam o ar três notas magoadas:
- São os sinos rezando a Avé-Maria...
 
 
 
NOSSA SENHORA DA TRINCHA
 
Nossa Senhora da "Trincha",
Dos soldados padroeira,
Tem capelinhas erguidas
Nas banquetas da trincheira!
 
Não A conhecem na igreja;
Ninguém mais A conhecia!
Fomos nós que A advínhamos,
Num minuto de agonia!...
 
*
*   *
 
Quando um dos meus soldados
Se arreceia de morrer,
Estas palavras que eu digo
Começa então a dizer:
 
- Deus me perdoe, se peco
Em tão grande devoção!
Nossa Senhora da "Trincha",
guardai o meu coração!...
 
Levai-o a Deus, para que fique
Mais sereno à sua beira;
E, depois que se aquiete,
Trazei-mo então à trincheira,
 
Para que o ponha, de novo,
Outra vez, dentro do peito,
A dar-me força e coragem
De ficar ao parapeito!...
 
Quando, à hora do "a postos",
é iminente o perigo,
Nossa Senhora da "Trincha",
Só Vós sois o meu abrigo,
 
- Pois qualquer outro que eu tenha,
Seja de tábua ou de betão,
Nunca será tão seguro
Como a Vossa protecção!
 
Se, para acudirdes aos mais,
Me não puderes valer,
Nossa Senhora da "Trincha",
E que eu tenha de morrer,
 
Seja aqui, pela barragem,
Ou na Terra de Ninguém,
Levai o meu coração
Para junto da minha mãe!...
 
Metei-lho dentro do peito,
Sem que possa adivinhar
Que os meus olhos que beijou,
Nunca mais há de beijar!...
 
E, depois que lá se encontre,
No sangue que ela me der,
Coração ressuscitado,
Há de tornar a bater!
 
Desse modo, a pobrezinha,
Quase afogada de pena,
Passará todos os dias
Mais confortada e serena!...
 
- Quando, por fim, desconfie
De que eu não volto ao seu lado,
E o coração lhe comece
A bater desordenado,
 
- Logo o meu, para acudir-lhe,
Para que não desfaleça,
Nossa Senhora da "Trincha"
Fazei que bata depressa
 
E digo dentro do seio,
Onde um dia se formou:
- "Minha Mãezinha, sossega!...
- Minha Mãezinha, aqui estou!..."
 
No milagre que vos peço,
Que com fé vos peço eu,
Meu coração não deseja
Melhor campa, melhor céu!...
 
*
* *
Nossa Senhora da "Trincha",
Dos soldados padroeira,
Tem capelinhas erguidas
Nas banquetas da trincheira!
 
Deus me perdoe, se peço
Em tão grande devoção!
- Nossa Senhora da "Trincha",
- Guardai o meu coração!...
 

Os Capelães retratados nas memórias do General Fernando Tamagnini

 
No capítulo XIV das suas memórias "Os Meus Três Comandos"25, o General faz referência aos dois decretos que enquadram o Corpo de Capelães, o Decreto 2869, de 30 de Novembro de 1916, que autorizou o comandante do Corpo Expedicionário Português a requisitar assistência religiosa, através da incorporação de ministros religiosos portugueses das diferentes religiões. Houve um cuidado especial por parte do Governo para não dar primazia à Igreja Católica, no entanto, foi desta estrutura que se apresentaram os voluntários que partiram para os teatros de guerra.
 
Dois meses mais tarde, e com a tropas a embarcar para França, foi publicado o Decreto 2942, de 18 de Janeiro de 1917, que estabelecia as regras da prestação do serviço e que restringia o número de voluntários ao do quadro dos capelães das unidades componentes do C.E.P., antes da reorganização de 1911, data da extinção da classe de capelães.  Com estas restrição partiram para França com as primeiras tropas apenas 14 sacerdotes. 
 
Foi o General Fernando Tamagnini que nomeou o Alferes Capelão José do Patrocínio Dias como Chefe do Corpo de Capelães Voluntários do CEP, para orientar e dirigir o serviço da especialidade, e tratar com o comando dos assuntos respectivos.
 
De início apenas lhes era fornecido alojamento, alimentação e transporte, mas a partir de Junho de 1918, com o Decreto 4489, de 1 de Junho de 1918, passou a ser-lhes abonado o vencimento correspondente ao posto de alferes, cuja graduação o Decreto 2942, de 18 de Janeiro de 1917, já lhes conferia. antes do Estado lhes pagar o vencimento, este era subsidiado pela Comissão Nacional da Assistência Religiosa em Campanha, que em Portugal angariava donativos para esse fim e compra de altares de campanha e alfaias de Culto.
 
O General Fernando Tamagnini considerou que o número de 18 capelães foi insuficiente para o exercício regular das suas funções, uma vez que de acordo com a orgânica anterior a 1911 o número de capelães presentes em campanha deveria ser de 40.
 
Para além do número reduzido de capelães as distâncias entre as unidades também dificultavam a aplicação dos serviços reclamados pelas unidades, o que levou a que fosse frequente encontrar os capelães a se deslocarem entre as unidades de bicicleta ou a cavalo. Foi reconhecido que os soldados que se confessavam, comungavam e ouviam missa marchavam para as trincheiras com muito maior moral dos que eram privados dos actos de Culto.
 
Ao Ministro da Guerra, General Norton de Matos, foi solicitado mais capelães, inclusivamente por insistência do Capelão Chefe do I Exército Britânico que por várias vezes indicou que o C.E.P. não apresentava o número suficiente de capelães para prestar o serviço religioso como necessário.
 
Houve por parte dos militares em campanha uma grande consideração pelo serviço prestado em França. O Corpo de Capelães no final da guerra recebeu 15 louvores individuais e um colectivo. Cinco foram condecorados com Cruzes de Guerra, um com o grau de Cavaleiro da Torre e Espada, um com o grau de Comendador da Ordem de Cristo, dois com o grau de Oficial da Ordem de Cristo e três com o grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo, e ainda, três com a medalha militar de prata da classe de bons serviços.
 
No final do capítulo dedicado aos capelães, o General Fernando Tamagnini faz referência a que dos antigo capelães do Exército, que apesar de ser uma classe extinta em 1917, nenhum dos 36 ex-capelães militares, se ofereceu para ie com o C.E.P. para França. 
 
 
 
  
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Notas
  1. Serpa(1959), pp. 227-230
  2. Moura(2010), pp. 80-99
  3. Rocha(1924), pp. 27-8 e pp.111-6
  4. Costa(1920), p. 184.
  5. Costa(1920), p. 185.
  6. Costa(1920), p. 186.
  7. Barros(1925), p.135
  8. Lourinho(2006), pp.84-7.
  9. Granjo(1919), 81-2
  10. PT/AHM/D1/S35/CX1243, Arquivo CEP - Assistência Religiosa
  11. Mardel(1923), p.175
  12. Magno(1921), p.9
  13. Magno(1921), p.10
  14. Casimiro(1920), p.146, Augusto Casimiro refere ter recebido do Alferes-capelão António Rebelo dos Anjos, quando se encontrava hospitalizado, a oferta da fé lusitana e um livro sobre Guinemer.
  15. Casimiro(1929), p. 154
  16. PT/AHM/D1/S35/CX1333, Arquivo CEP - Assistência Cruz Vermelha
  17. FPC/EHS/CX1, Arquivo CEP - Serviço Postal de Campanha SPC
  18. Quirico(1918), pp.9-10
  19. Quirico(1918), pp. 2-14
  20. Freitas(1935),pp. 258-261
  21. Costa(1934), p.133.
  22. Costa(1934), p.138
  23. Fraga (2003), p.73
  24. Caixa PT/AHM/DIV/35A/1380
  25. Marques(2004), pp. CCVIII-CCX.
  26. Marques(2004), p. CCL.
  27. Gonçalves(1920), pp. 45-7.
  28. Gonçalves(1920), p.46.
  

Bibliografia

 
  • Moura, Maria Lúcia de Brito(2010), "Nas Trincheiras da Flandres, Com Deus ou sem Deus, eis a questão", 1ª ed., Lisboa, Edições Colibri, (ISBN:978-989-689-031-5)
  • Serpa, C J Gonçalves(1959), "D.José do Patrocínio Dias, Bispo-Soldado", s.e., Lisboa, Oficinas da União Gráfica.
  • Rocha, Alfredo Barata da (1924), "Névoa da Flandres", s.e., Porto, Renascença Portuguesa
  • Costa, Gomes da (1920), "O Corpo de Exército Português na Grande Guerra - A Batalha do Lys", 1ª ed., Porto, Renascença Portuguesa.
  • Barros, Francisco José de (1925), "Portugueses na Grande Guerra, Narrativas dum trincheirista na Flandres, Angustias do Cativeiro", s.e., Lisboa, serviços Gráficos do Exército.
  • Lourinho, Manuel Hermenegildo (2006), "Prisioneiros Portugueses na Alemanha 1º Grande Guerra 1917-1919", Colecção História Militar - Estudos e Documentos, s.e., Lisboa, Prefácio. (ISBN:972-8816-91-X)
  • Granjo, António (1919), "A Grande Aventura (cenas da guerra)", 1ª ed., Lisboa, Editora Portugal-brasil Ltd.
  • Mardel, Eugénio (1923), "A "Brigada do Minho" na Flandres, (o 9 de Abril), Subsídios para a História da 4ª Brigada do CEP", s.e., Lisboa, Serviços Gráficos do Exército.
  • Magno, David (1921), "Livro da Guerra de Portugal na Flandres, Volume II", s.e., Porto, Companhia Portuguesa Editora.
  • Casimiro, Augusto (1920), "Calvário da Flandres", 3ª ed, Porto, Renascença Portuguesa.
  • Quirico, Padre José (1918), "O Papa e a Guerra: Excelência e Utilidade da Obra do santo Padre Durante o Conflito Europeu", Lisboa, Civilitá Catolica.
  • Freitas, Pedro de (1935), "As recordações da Grande Guerra", Lisboa, Tipografia da Liga dos Combatentes da Grande Guerra.
  • Costa, Mário (1934), "Cartas de Moçambique: de tudo um pouco", Lisboa, (s.n.)
  • Fraga, Luís Alves de (2003), "Guerra e Marginalidade: O Comportamento das Tropas Portuguesas em França 1917-1918", 1ª ed., Lisboa, Prefácio, (ISBN:972-8563-96-5)
  • Marques, Isabel Pestana (2004), "Memórias do General 1915-1919: Os meus três comandos de Fernando Tamagnini", 1º ed. Lisboa. Viseu, SACRE - Fundação Mariana Seixas. (ISBN:972-99180-0-7)
  • Gonçalves, Horácio Assis (1920), "Na Ceplândia :Retalhos da Grande Guerra", Porto, Tipografia da Oficina de S.José.
 
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