Bernardino Machado e o ensino dos cegos e surdos-mudos
Para a Dra. Manuela Muñoz Cardoso
Quando, há um certo tempo, fui obrigado a socorrer-me dos cuidados médicos do Hospital de Santa Cruz, tive o agradável prazer de conhecer a Dra. Manuela Muñoz Cardoso, distinta técnica de saúde daquele estabelecimento hospitalar, e bisneta do professor Paul Renée Anicet Fusillier. Lembrámos os nossos antepassados e trocámos recordações. Fiquei, então, a saber as estreitas relações entre ambos; meu Avô foi padrinho do casamento de Anicet Fusillier com a Senhora D. Maria Leopoldina Ferreira Cidade, em 1893, quando era Ministro das Obras Públicas. Depois do falecimento do professor Fusillier, em África, no ano de 1899, a sua Viúva e filha Hermínia, continuaram a conviver com meus avós e filhos, e quando da ida para o Brasil, em 1912, meus avós entregaram o governo da casa na Rua Ponta Delgada à sua Amiga Maria Leopoldina.
Encontrei, então, ao consultar a correspondência de minha Mãe, fotografias e muitos postais de sua Amiga Herminia.
Todos estes factos levaram-me a conhecer a notável actividade de Anicet Fusillier no apoio e assistência aos surdos-mudos e tudo o que se fez no periodo em que Bernardino Machado ocupou a pasta do Ministério das Obras Públicas, em 1893.
Do livro de meu tio António - "Bernardino Machado - Memórias", transcrevemos os seguintes parágrafos do capítulo - "O Ministério de 1893".
"Bernardino Machado reuniu, então, em volta de si um escol de trabalhadores, de professores e técnicos, que o ajudaram a levar a bom termo as suas iniciativas ministeriais. Sabia escolher os colaboradores e punha sempre em destaque os seus serviços e talentos, e, por isso, eles lhe eram extremamente devotados.
Entre os professores do ensino técnico lembramo-nos particularmente de dois italianos, de mestre Cristofaneti e do bom e simpático Ianz, que, com o bondoso Aniceto Fusilier, tanta diabrura nos aturou."...
"O carinho por todos os desprotegidos da sorte levou meu pai a interessar-se também, já nessa altura, pelo ensino dos surdos-mudos e dos cegos. Por isso, eram habitués da nossa residência em Belém o professor francês Aniceto Fusilier, a quem já aludimos, e o Dr. Mascaró, inventor dum novo processo para leitura de cegos e videntes, como pitorescamente dizia."...
"Outro personagem que recordamos é Lobo de Miranda, o cego, cuja nomeação para professor primário foi devida à intervenção de meu pai, que reconhecera as suas excepcionais faculdades de inteligência."...

Bernardino Machado com Herminia Fusillier

Na casa da Cruz Quebrada, em 1911, minha mãe (Rita), Herminia Fusillier e minha tia Elzira Machado; na janela meu tio Bernardino.

Fotografia oferecida a meus pais, depois do seu casamento, por minha tia Jerónima, Herminia Fusillier, e minha tias Joaquina e Maria.