As Mulheres e a Maçonaria
Natividade Monteiro
Foi há cem anos, em 1907, que Magalhães Lima, Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido, iniciou na Maçonaria um grupo de mulheres feministas e republicanas que há muito lutavam pela transformação política e cultural da sociedade portuguesa. Foram elas, as dirigentes feministas Adelaide Cabete, Ana Augusta Castilho, Ana de Castro Osório, Carolina Beatriz Ângelo e Maria Veleda que, entre outras, passaram a militar na Loja Humanidade, agremiação maçónica feminina independente, com igualdade de direitos e representação junto das hierarquias maçónicas e em todos os actos de carácter electivo. A criação desta loja feminina remonta a 1904, mas só com a entrada das mulheres feministas e republicanas se tornou independente, situação inédita em toda a Europa e bastante contestada por algumas lojas masculinas mais conservadoras.
A luta destas mulheres não se limitava à reivindicação da igualdade de direitos sociais, civis e políticos mas incluía, sempre que possível, uma prática de plena cidadania. A independência conseguida no interior da Maçonaria não foi alheia à luta pela emancipação feminina, ideal que naquela época não se podia desligar da luta pela República e pela liberdade de consciência. Magalhães Lima, como Grão-Mestre da Maçonaria, teve um papel muito importante neste processo de autonomia, pois foi o dirigente republicano que mais apoiou a causa da emancipação das mulheres, sobretudo o direito de voto.
A participação das mulheres na instituição maçónica foi mais ou menos intensa consoante o rumo que o regime republicano ia tomando. Sempre que os ideais da República eram desvirtuados ou estavam em perigo de perecer havia uma congregação de esforços entre agremiações femininas e masculinas para os defender e consolidar. No entanto, as mulheres cansadas e desiludidas pela actuação dos seus confrades, decidiram filiar-se na Ordem Mista Internacional Direito Humano, fundada em França em 1893 por Maria Deraismes e George Martin, que aceitava homens e mulheres em igualdade de direitos. Adelaide Cabete foi a obreira desta adesão em 1923, sendo-lhe concedidos poderes para instalar a Loja Humanidade de Direito Humano nº. 776, da qual se tornará Venerável.
Cem anos depois, há que homenagear todas as mulheres que tiveram a coragem de lutar com coerência e tenacidade pelos ideais da liberdade, igualdade e solidariedade em todas as associações a que pertenceram e que, apesar das limitações impostas ao seu sexo, ousaram exercer a cidadania em todas as vertentes do quotidiano.


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