Bernardino Machado foi agraciado com a Ordem da Liberdade - a título póstumo, por alvará de 24 de Abril de 1980, da Chancelaria das Ordens Portuguesas.
domingo, 27 de outubro de 2013
sábado, 26 de outubro de 2013
Recordar Republicanos
Jaime Morais - II
Jaime Alberto de Castro Morais (Macedo de Cavaleiros, Chacim, 13 de Julho de 1882 — Niterói, Brasil, 20 de Dezembro de 1973), mais conhecido por Jaime de Morais, foi um médico e oficial da Armada Portuguesa que se distinguiu na oposição ao regime ditatorial saído do Golpe de 28 de Maio de 1926. Entre outras funções foi governador-geral de Angola e governador da Índia Portuguesa
Nasceu em Chacim, Macedo de Cavaleiros, filho de Américo Augusto Pires de Morais e de sua mulher Margarida Cândida Pereira de Castro.
Nasceu em Chacim, Macedo de Cavaleiros, filho de Américo Augusto Pires de Morais e de sua mulher Margarida Cândida Pereira de Castro.
Concluiu em 1904 o curso de Medicina na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Ingressou em Setembro de 1905 na Armada Portuguesa como guarda-marinha destinado a seguir a carreira de médico naval.
Entre 1906 e 1910 esteve colocado na Divisão Naval do Atlântico Sul, estando em 1908 ao serviço da Estação Naval da Guiné, participando então na campanha conduzida pelo governador João Augusto de Oliveira Muzanty contra os povos Biafadas e Papéis da região de Bissau,
No desenvolvimento da sua carreira naval fez parte da guarnição de diversos navios de guerra, entre os quais o cruzador D. Carlos I (depois rebpatizado cruzador Almirante Reis), a canhoneira Dio, o transporte Salvador Correia e o vapor Liberal. Entretanto foi promovido a segundo-tenente em 1909 e a primeiro-tenente em 1910, ano em que regressou a Portugal.
Participou activamente na revolução que a 5 de Outubro de 1910 levou à implantação da República Portuguesa. Foi então nomeado secretário do capitão-de-mar-e-guerra Amaro Justiniano de Azevedo Gomes quando aquele oficial assumiu as funções de Ministro da Marinha e Colónias do Governo Provisório da República Portuguesa.
Em Janeiro de 1911 foi enviado para Luanda no cargo de secretário-geral do governo de Angola, mantendo-se nessas funções até Fevereiro do ano seguinte, regressando então a Lisboa.
Em Janeiro de 1914
foi nomeado governador do Distrito do Congo, na então colónia de
Angola. Ao tempo, as populações do território que integrava aquela
jurisdição estavam em plena insurreição contra o domínio colonial
português, pelo que poucos dias após a sua chegada foi obrigado a
assumir o comando de uma coluna militar destinada a subjugar as
populações da área de São Salvador do Congo, Nóqui e Bembe.
Em Outubro daquele ano de 1914, conseguiu aprisionar o chefe indígena Buta,
que liderava o movimento insurreccional, resultado do êxito nas
operações militares que conduziu ao comando de uma força composta por 5
companhias de infantaria recrutadas entre os povos locais. Subjugada a
insurreição, conseguiu proceder à ocupação do território do distrito e
ainda de cerca de 40 000 km² nos distritos vizinhos de Cuanza Norte e de Malange.
Ao longo da sua permanência nas colónias portuguesas de África
integrou como médico militar as forças portuguesas que conduziram
algumas das chamadas campanhas de pacificação da Guiné Portuguesa e de Angola, durante as quais se salientou pela sua coragem e denodo.
Atingiu o posto de capitão-tenente em 1917, sendo em Setembro desse ano nomeado governador-geral interino de Angola, sucedendo no cargo ao governador-geral Pedro Massano de Amorim.
Aquando da sua tomada de posse a situação em Angola era extremamente
grave, pois em Maio daquele ano, as populações da região de Seles e de Angoche tinham-se revoltado em consequência dos esbulhos, as perseguições, as prepotências e injustiças praticadas pelos agricultores e comerciantes estabelecidos na região1 e a revolta alastrara a outras zonas.
Quando chegou a Angola, o seu antecessor, Massano de Amorim, tinha ido para o teatro de operações e com ajuda de forças do Bailundo esmagou a revolta nos últimos dias do seu mandato, pois embarcou em Outubro de 1917 para Lisboa, sendo demitido em Janeiro de 1918.
Como governador interino, Jaime de Morais teve de conduzir a fase final
das operações e extinguir os últimos focos de sublevação, o que
conseguiu, prosseguindo com a ocupação de vastos territórios, sobretudo
em Malange e Cuanza Norte.
Quando Sidónio Pais assumiu o governo, Jaime de Morais, que não podia concordr com as políticas do sidonismo, solicitou a demissão, mas apenas foi substituído a 15 de Setembro de 1918 por Filomeno da Câmara de Melo Cabral. Entretanto publicara uma portaria declarando findo o estado de guerra em Angola, onde apenas região dos Dembos permanecia sublevada.
Pouco tempo depois de ter regressado a Portugal, liderou, com Álvaro de Castro, Cunha Leal, António Granjo e Júlio Martins, o Movimento de Santarém, uma sublevação militar contra o governo levada a cabo a 10 de Janeiro de 1919.
Integrou as forças pró-republicanas que sob o comando do general Augusto César Ribeiro de Carvalho, no ano de 1919, derrotaram em Chaves a Monarquia do Norte.
A 17 de Abril de 1919 foi feito Comendador da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito e a 13 de Junho de 1919 foi feito Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.2
Foi Governador da Índia Portuguesa entre Outubro de 1919 e Abril de 1925,
data em que regressou a Portugal. O seu desempenho naquela colónia
traduziu-se por uma administração exemplar, que mereceu a concordância
dos meios coloniais portugueses. Conduziu uma política de normalização e
de estabilização das relações com as populações locais e com as
autoridades britânicas da vizinha Índia Britânica, obteve o equilíbrio orçamental da colónia e realizou uma política de fomento de grande fôlego.
A 5 de Outubro de 1922 foi feito Comendador da Ordem Militar de Avis e a 14 de Outubro de 1925 foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Cristo.3
Após o seu regresso a Portugal fez parte de uma comissão nomeada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros
para dar parecer sobre a mão-de-obra nas colónias e da comissão
encarregada de determinar o investimento público feito nas colónias
portuguesas para ser apresentado pela delegação portuguesa na Sociedade das Nações.
Após a implantação da Ditadura Nacional em 1926 ainda foi convidado por João Belo, o Ministro das Colónias do novo governo, para os cargos de governador do Banco de Angola e para alto comissário da República em Moçambique. Apenas aceitou, em Outubro de 1926, integrar o Conselho Superior das Colónias. Pouco depois passou a liderar o movimento militar de oposição ao regime, participando em múltiplas acções do Reviralhismo, entre as quais na Revolta de 3 de Fevereiro de 1927, no Porto, de que foi um dos líderes.
Refugiou-se em Espanha, sendo julgado à revelia e demitido da Armada Portuguesa. A 1 de Maio de 1928, quando estava clandestinamente em Portugal, foi preso e, três dias depois, deportado para a ilha de São Tomé por pertencer a um comité revolucionário que conspirava contra o governo da Ditadura Nacional. Em Outubro daquele ano fugiu da ilha e exilou-se em França, país onde permanece até 1931. Após a instauração naquele ano da Segunda República Espanhola, instala-se em Madrid, constituindo com Jaime Zuzarte Cortesão e Alberto Moura Pinto, o Grupo de Madrid, que depois viria a ser conhecido pelo Grupo dos Budas.
Implicado no incidente do navio Turqueza que revelou uma
operação de compra de armas e seu contrabando para os revolucionários
portugueses, foi obrigado a partir para França, onde permanece até ao
início da Guerra Civil Espanhola. Regressa então a Espanha onde em Novembro de 1936 foi
um dos subscritores do manifesto de solidariedade dos emigrados
portugueses para com os republicanos espanhóis que foi publicado no
jornal El Sol, demarcando-se da posição do governo do Estado Novo.
Participa activamente nas reuniões de exilados políticos portugueses realizadas em Madrid e Paris, visando a fundação da Frente Popular Portuguesa e por várias vezes visita clandestinamente Portugal com o objectivo de contactar grupos revolucionários civis e militares.
Durante a Guerra Civil Espanhola esteve em Barcelona como repórter do jornal UNIR, órgão da Frente de Portugueses Exilados. Nesse período giza o chamado Plano L
(1938) com vista à invasão de Portugal, por terra e mar, com o apoio
dos republicanos espanhóis. O plano gorou-se com a derrota dos
republicanos.
No fim da guerra civil, foi feito prisioneiro e internado num campo
de concentração espanhol. Libertado, atravessou clandestinamente a
França, país onde desde 1935 existia um mandato de prisão contra ele em resultado do contrabando de armas. Refugiou-se na Bélgica, de onde partiu para França resolvida a questão judicial existente contra ele.
Fixado em Paris, em Setembro de 1939, quando se desencadeou a Segunda Guerra Mundial, em companhia de Agatão Lança, entregou na embaixada de Portugal em Paris uma declaração assinada pelo antigo Presidente da República, Bernardino Machado,
em nome dos republicanos portugueses exilados em França, afirmando os
sentimentos de solidariedade dos emigrados com todos os portugueses, sem
distinção de partidos.
Em 1940, em resultado da tomada de Paris pelo exército da Alemanha Nazi, tentou entrar clandestinamente em Portugal pela fronteira de Vilar Formoso, mas foi preso e expulso do território nacional, partindo para o exílio no Brasil.
Durante a realização da Conferência de São Francisco, em 1945,
foi aceite como observador em representação dos portugueses exilados no
Brasil, desenvolvendo, sem sucesso, uma vigorosa campanha junto da
comunidade internacional contra o regime do Estado Novo.
Apesar de amnistiado em 1950, e reintegrado no posto de capitão-tenente na situação de reforma, apenas visitou Portugal em 1952 pois fixou-se no Brasil, onde se dedicou ao comércio. Manteve sempre a sua acção como opositor ao salazarismo.
Faleceu em Niterói a 20 de Dezembro de 1973, poucos meses antes da queda do regime corporativista em Portugal.
Jaime de Castro Morais foi condecorado com a comenda da Ordem da Coroa da Bélgica (pelos serviços prestados ao Congo Belga).
Recebeu a Medalha de Prata de Comportamento Exemplar e a Medalha da Campanha da Guiné (1908). Era também detentor da Medalha de Ouro de Valor Militar
com Palma por serviço em campanha, da Medalha de Ouro da Campanha do
Congo (1914-1917) e da Medalha de Ouro da Campanha de Angola
(1915-1918).
Jornal de Madrid "El Sol" citado nas anteriores notas biográficas e que transcreveu o manifesto de solidariedade dos emigrados portugueses com os republicanos espanhois, em 1936.
Jornal de Madrid "El Sol" citado nas anteriores notas biográficas e que transcreveu o manifesto de solidariedade dos emigrados portugueses com os republicanos espanhois, em 1936.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Recordar Republicanos
Jaime Morais - I
Bernardino Machado com Jaime Morais no exílio em França (1931)
Dados biográficos retirados do portal Casa Comum - Fundação Mário Soares
Entre 1906 e 1910 esteve destacado na divisão naval do Atlântico Sul e, em 1908, na estação naval da Guiné, durante a campanha contra os Biafadas e os Papéis de Bissau.
Desempenhou os cargos de secretário -geral do Governo da Província de Angola
(Janeiro de 1911 a Fevereiro de 1912), governador do Distrito do Congo (Janeiro
de 1914) e governador-geral interino de Angola (1917). Como militar
distinguiu-se no comando das campanhas de pacificação e ocupação de território
nos distritos do Cuanza e Malanje. Participou na construção do Caminho de Ferro
de Ambaca.
Em 1919 combateu, em Chaves, a Monarquia do Norte.
Foi governador-geral da Índia entre 1919 e 1925.
Foi um dos líderes da revolução do 3 de Fevereiro de 1927 no Porto, o que lhe valeu no ano seguinte a demissão da Armada e a deportação para S. Tomé, de onde escapou rumo a Paris.
A proclamação da II República em Espanha levou-o a Madrid onde constituiu, com Jaime Cortesão e Moura Pinto, o grupo revolucionário “Budas”. Subscreveu juntamente com outros exilados, em Novembro de 1936, um Manifesto de solidariedade para com a República espanhola, em plena guerra civil, demarcando-se assim do governo salazarista.
Circulou entre Madrid e Paris em reuniões que precederam a criação da da Frente Popular Portuguesa. Foi repórter do jornal UNIR da Frente de Portugueses Exilados, em Barcelona. Ao mesmo tempo foi contactando com grupos militares e civis revolucionários portugueses. Após a derrota dos republicanos em Espanha (que arrastou consigo o apoio ao plano de invasão de Portugal, conhecido como Plano L), foi internado num campo de concentração espanhol. Conseguiu porém libertar-se e refugiar-se na Bélgica, onde ainda não era procurado pelas autoridades.
Preso em Vilar Formoso (1940) e expulso do território nacional exilou-se no Brasil, onde prosseguiu a campanha contra a ditadura de Salazar.
Faleceu em Niterói, no dia 20 de Dezembro de 1973.
Em 1919 combateu, em Chaves, a Monarquia do Norte.
Foi governador-geral da Índia entre 1919 e 1925.
Foi um dos líderes da revolução do 3 de Fevereiro de 1927 no Porto, o que lhe valeu no ano seguinte a demissão da Armada e a deportação para S. Tomé, de onde escapou rumo a Paris.
A proclamação da II República em Espanha levou-o a Madrid onde constituiu, com Jaime Cortesão e Moura Pinto, o grupo revolucionário “Budas”. Subscreveu juntamente com outros exilados, em Novembro de 1936, um Manifesto de solidariedade para com a República espanhola, em plena guerra civil, demarcando-se assim do governo salazarista.
Circulou entre Madrid e Paris em reuniões que precederam a criação da da Frente Popular Portuguesa. Foi repórter do jornal UNIR da Frente de Portugueses Exilados, em Barcelona. Ao mesmo tempo foi contactando com grupos militares e civis revolucionários portugueses. Após a derrota dos republicanos em Espanha (que arrastou consigo o apoio ao plano de invasão de Portugal, conhecido como Plano L), foi internado num campo de concentração espanhol. Conseguiu porém libertar-se e refugiar-se na Bélgica, onde ainda não era procurado pelas autoridades.
Preso em Vilar Formoso (1940) e expulso do território nacional exilou-se no Brasil, onde prosseguiu a campanha contra a ditadura de Salazar.
Faleceu em Niterói, no dia 20 de Dezembro de 1973.
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
XII
A ACADEMIA E O ENSINO UNIVERSITÁRIO
«A Academia está para a Universidade
como o povo para as instituições. É no seu seio que principalmente se geram e
se elaboram as redentoras reformas. E eu de todo o coração aplaudo a pacífica
revolução democrática que os alunos da nossa Universidade este ano
empreenderam, esboçando na vida académica a república fraternal, que é hoje a
aspiração profunda, ardente e inelutável da alma livre e heroica do povo
português.»
“Recepção
aos Novatos”, in A Universidade de
Coimbra, 2.ª ed., Lisboa, Editor-Proprietario, Bernardino Machado, 1908.
·
«O programa do governo académico é evidentemente a
instrução.
A Academia tem de difundir no seu seio esta instrução
que só as Universidades exclusivamente possuem a virtude de ministrar, a livre
instrução geral que tanta plasticidade e agudeza dá ao engenho dos seus alunos.»
«O que assim mutuamente se aprende nessa feliz quadra
da vida em que se está sempre ansiando por saber tudo! Eu, a literatura,
bebia-a todos os dias na Castália dos parnasianos da Folha, no gabinete do nosso popular [Gonçalves] Crespo, que, por
sinal, tinha o requintado escrúpulo artístico de sujeitar os seus versos novos
a serem lidos de alto logo à primeira por um profano como eu. O quarto de [Guerra]
Junqueiro, hoje pontífice máximo das letras, era também um tabernáculo da minha
particular devoção. Foi lá que, um Inverno, que a geada caía em flocos cá fora,
nós mal sentimos os seus rigores, abraçados pelas chamas o teatro de Hugo. E,
assim como para Victor Hugo tive Junqueiro, ainda pude ter António Cândido para
Castelar. José Frederico Laranja lia-me em Platão e em Xenofonte os diálogos de
Sócrates, averbando-me de sofista, quando eu irreverentemente objectasse. E era
ele também que, palpitante de esperanças redentoras, me recitava o verbo
cordial do socialismo tanto no positivista Saint-Simon como no utópico Fourier.
Proudhon, ouvi-o ainda antes, sobretudo nos trechos mais contundentes, a Marçal
Pacheco, que, dizendo-se o vingador duma série infinita de proletários
espoliados, seus ascendentes, afiava as armas de polemista para o áspero strugle for life. Com Alves da Veiga
discuti gravíssimos problemas filosóficos e sociais. E eu mesmo ajudei várias
vezes insignes jurisconsultos futuros, em conjuntura de acto de exame, a
argumentarem os seus pontos; até, para meu eterno desvanecimento, corria entre
eles com apreço ousada interpretação heterodoxa do artigo do código civil em
que eu, rebelde naturalista, me abalançara a dissentir do consagrado comentário
do Sr. José Dias Ferreira. Aqui têm como entrei pelo direito, e, quase diria,
como já então me preparava para as revoltas republicanas.
Esta comunhão intelectual da academia faz-se por toda
a parte, mesmo ao ar livre, às vezes até melhor. Correia Barata, o talentoso
propagandista do darwinismo, demonstrava-nos a origem simiana do homem,
dependurado, à noite, dos galhos das árvores da alameda da Universidade. E para
este choque e transmissão de ideias contribuem todos os alunos, desde os
médicos mais materializantes até aos mais sobrenaturalistas teólogos.
Advertirei mesmo: os teólogos são preciosos. Esgrimindo com eles, com a sua
pertinaz escolástica, vão os outros temperando a razão para rebater todos os
assaltos da heresia.
Ao meu curso, fez-nos um incalculável bem a companhia
de António Maria de Sena, que vinha para as ciências naturais, já bacharel em
teologia, ao tempo do formidável dialéctico P. Albino, apercebido portanto com
todos os petrechos para a atacar.
As leituras, palestras e distracções da mocidade
influem por toda a vida; e só elas explicam certos aspectos picantes da idade
madura.»
«Por vezes sucede que estas influências recíprocas de
Faculdade para Faculdade, duns para outros estudos, não se limitam a dar enlevo
e horizonte à especialização da aula, tornam-se predominantes, são elas que
estimulam e acalentam no aluno a sua verdadeira especialidade, que desenvolvem
e fazem vingar a sua vocação original. A aula então passa para o segundo plano,
quando mesmo não desaparece. Vejam Teixeira de Queirós. Estudante laureado
pelos seus professores; mas o principal do seu labor académico foi a Comédia do Campo, que ele timidamente
submetia ao julgamento magistral de João Penha. Multipliquem-lha pelo seu curso
de medicina, e terão em gérmen o Bento Moreno todo. Exemplo da segunda espécie,
o contista Alberto Braga, que nunca deu uma falta nas suas aulas livres, donde
saiu com brilhantes informações de conversador, e que com igual regularidade
perdeu todos os anos nas aulas oficiais, sem embargo de toques de cabra e de
bedéis.»
«Grande escola a vida académica! Ela supre as lacunas
do ensino oficial. As suas faculdades não são só as mais frequentadas,
produzem. Quando se diz escola de Coimbra, é quase sempre dela que se fala. Ela
é sobretudo uma iniciação moral, uma escola de Governo livre. Mas cada geração
nova que vem sentar-se nas bancadas escolares, não se segrega por isso da
sociedade, da nação.
Tem logo a representar-lha os seus mestres. A Academia
de Coimbra é uma colónia que a metrópole portuguesa confia à direcção do corpo
docente. Zele, pois, a sua autonomia; mas não leve o ciúme da sua independência
até ao excesso de olhar com desconfiança e hostilidade o professor, a
autoridade representante da mãe pátria. Ser livre não é ser esquivo e fugaz.
Não se deixem arrastar por um anarquismo paradoxal, que não é senão
dissociação, atomismo. O sentido léxico do termo confunde. A sociedade não caminha
para a abolição do Governo. Desde o tribunal arbitral entre o patrão e o
operário até ao tribunal arbitral entre as nações, é por toda a parte a mesma
aspiração, a mesma ânsia de justiça, de Governo. Não se trata de suprimir a
autoridade, mas o arbítrio pessoal. Implantar o Governo directo comum de todos
só é anarquismo, porque é acabar com a usurpação do Governo exclusivo dum ou de
alguns. Só esse anarquismo queiramos, que só esse é legítimo.
Não renunciem nunca às franquias do seu pensamento.
Sejam briosos com os seus professores, não os cortejem, não os adulem; mas não
os evitem, não suspeitem em cada um deles sempre o déspota intratável. Bem sei
que a separação entre o professor e o aluno vem tradicionalmente do velho
dogmatismo catedrático, mas os tempos mudaram e com os tempos os professores,
hoje mesmo alguns com rostos tão imberbes que lhes falta o físico para tais
prosápias autoritárias; e, se essa separação excepcionalmente persiste, não a
agrave, não a encarnice por sua parte o aluno! Quantas vezes ainda com o
estudante que se forma, se forma o inimigo da Universidade! Não pode ser, não
deve ser mais assim!»
«O mal, na Universidade como no país, não provém tanto
dos homens como do regime. Urge reformar radicalmente a legislação do ensino
universitário. Mas reformas, inovações, mal se podem fazer, nem quase se
compreendem, sem o dispêndio ardente do sangue impetuoso da mocidade. Cooperem
para elas os alunos com os professores. E, se os professores se não apressarem
a reclamá-las e promovê-las, incitem-nos, acoroçoem-nos os alunos com todo o
ardor da sua fé e do seu entusiasmo. Foi a nossa mocidade académica, foram até
os seus teólogos, que, não há muito tempo, saindo à estacada, repeliram a
tentativa feita em cortes para a invasão legal da igreja católica lusitana por
diplomas de teologia passados em Roma. E foi em ela, em massa, e quase só ela,
que, recentemente, pela minha voz, na conferência que a seu convite fiz no
Instituto de Coimbra, protestou contra a injúria ditatorial e contra a farragem
pretensiosa da última reforma universitária. Honra lhe seja!
Nada do que importa à Universidade, é estranho e pode
ser indiferente aos seus alunos; e o seu estatuto dos estudos diz-lhes
directamente respeito. Reformas há mesmo por que ninguém mais competente para
representar do que eles. Uma lhes apontarei. Qual é o que se não sentirá vexado
na sua dignidade pelo preceito legal que lhe põe todos os dias defronte,
policialmente, a velar pela exactidão do seu estudo, de interrogatório
desembainhado o seu professor? Pois este exame contínuo, impertinente, sempre
suspenso sobre a sua cabeça, sobre a honradez e a delicadeza da sua
consciência, não lhes pesa e não os irrita como uma suspeição e uma afronta?
Não se revoltem por isso contra a aula e contra o professor; mas reclamem
energicamente a reforma da lei. Afirmem com altivez aos nossos governantes que
não estão aqui para fazer um curso estratégico de ociosidade em guerra acesa
com os seus mestres, que sabem muito bem que estão para estudar, para colaborar
intimamente com eles pelo progresso da ciência e da nação. Uma Universidade não
é precisamente uma escola de correcção de vadios.
O povo académico tem afinal sempre ao seu dispor um
último recurso contra os regulamentos e rituais importunos e deprimentes: é não
os cumprir. E está claro que usa dele. Até abusa, o que não admira, porque
desse recurso é realmente muitas vezes difícil usar bem. Eu não lho posso
aconselhar e aplaudir cegamente; contudo, não posso tão pouco reprovar-lho
redondamente, em princípio. Há uma desobediência legítima. Mal da lei escrita,
se ela briga com a lei moral! E há um inalienável direito soberano de
legislatura, que pertence a toda a gente.»
«Meus senhores! Os estudantes da Academia de Coimbra
não são só membros da cidade universitária, são também cidadãos da nação. Têm
deveres para com ela, para com todos os seus concidadãos, a começar logo por
aqueles que, nesta hospitaleira Coimbra, aqui ao pé labutam para os ajudar
diuturnamente nas suas lides. São solidários com a pátria. São seus soldados!
Têm deveres mesmo muito grandes, porque são ricos.
Ainda os que não são ricos de dinheiro, possuem a mocidade e o vigor, os
talentos e a instrução, inestimáveis bens. Não os dissipem! Não convertam essas
forças de vida em armas de ataque contra ninguém, e – cautela! – não maltratem,
não pisem nunca com elas os humildes, os fracos! Não abusem dos atractivos da
sua gentileza; não atraiçoem a confiança que inspirem nos seus contratos; não
espalhem em volta de si os aristocráticos desdéns intelectuais de quem se
julga, por direito divino, senhor das ideias, do saber. Nada de despotismo! Nem
a paixão do estudo levem até ao olvido sequer dos outros, sobretudo dos que por
seu amor mais trabalham e penam. Formem-se, não se alienem! Saber é, antes de
mais nada, saber amar.»
“A
Academia de Coimbra”, in A Academia de Coimbra, Coimbra,
Typographia França Amado, 1906; tb. in: A
Universidade de Coimbra, 2.ª ed,. Lisboa, Editor-Proprietario, Bernardino
Machado, 1908.
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