Recordar o Almirante José Nunes da Mata
Para a Paula Lamego, com um beijo de gratidão
pela sua ajuda!
Acabo de ler, neste veraneio em Cascais, a Agenda Cultural de Setembro/Outubro, onde nos convindam a fazer uma visita pela "Parede Republicana", e se destaca a figura de Nunes da Mata.
Lembrei-me que nos espólios de Bernardino Machado, existe correspondência trocada entre ambos.
As relações pessoais e afectuosas mantiveram-se desde os finais do século 19 até ao Estado Novo.
São muitas as cartas depositadas no Museu de Famalicão e algumas na Fundação Mário Soares.
Dados biográficos retirados do "Dicionário de Maçonaria Portuguesa" - Oliveira Marques
Encontrámos um texto interessante no blogue -
"Parede - Bem vindo à minha página pessoal TRIPOD" - clicar
aqui - sobre Nunes da Mata, que transcrevemos, com a devida vénia:
DA TERRA DE CANTEIROS A UMA NOVA VISÃO DE PAREDE
"Perante o cenário anteriormente descrito, surgirá a personalidade
fulcral na história de Parede do nosso século - o então Segundo-Tenente, futuro
Almirante Nunes da Matta. A primeira passagem de Nunes da Matta por Parede,
dá-se em Setembro de 1879 ou 1880, quando se dirigia de Lisboa a Cascais de
diligência, para assistir às regatas. Quatro ou cinco anos antes, as vinhas da
região tinham sido atacadas pela filoxera. A este propósito, a descrição que
nos faz é de que não havia uma única videira, erva ou árvore. Os terrenos na
parte Sul de Parede, junto ao mar, eram cultivados principalmente com vinha. O
regime de propriedade era o minifúndio, com o terreno dividido em pequenas
parcelas e separado por "(...) toscos muros, quase negros que em número
incalculável separavam as pequenas parcelas de terreno (...)". A filoxera
provocou um forte abalo na economia local e os seus efeitos devastadores
deixaram marcas na memória dos habitantes de Parede. Depois de 1883, devido a
afazeres vários, Nunes da Matta deixa de frequentar as regatas em Cascais,
passando-lhe assim despercebida a construção da linha férrea Cascais-Pedrouços,
e as casas e palácios dos Estoris. Mais
tarde, em 27 ou 28 Abril de 1890, encontra o seu amigo republicano Contreiras,
que lhe pergunta se já tinha viajado na linha férrea de Cascais e visto as
casas e palácios que se estavam a construir nos Estoris. Como ainda não o
tivesse feito, Contreiras convida-o a ir na tarde do dia seguinte visitar a
região e também para ouvir a sua opinião acerca da casa que estava a construir
no lugar da Poça. O já então Capitão-Tenente Nunes da Matta, assim o fez e
ficou maravilhado com as condições meteorológicas"(...) raras vezes
igualadas em outros locais do planeta (...)", no seu dizer de experiente
lobo do mar, que se faziam sentir nesse dia. Visita a casa de seu amigo e ao
passear por São João do Estoril, para apreciar as casas e palácios que estavam
a ser construídos na altura, Nunes da Matta desgosta-se e entristece-se com o
facto de se estarem a construir as casas sobre as ribas do mar, impedindo o
usufruto do mar por todos e "(...) prejudicando assim a estética e o futuro
brilhante desta esperançosa povoação (...)". O seu correligionário
Contreiras, responde-lhe que os proprietários dos terrenos podem neles
construir onde quiserem e a Câmara nada pode fazer para o impedir. Nunes da
Matta continua a argumentar que a Câmara, através do seu presidente de então,
Costa Pinto, poderia conseguir uma lei a fim de impedir, ou caso tal não fosse
possível persuadir os proprietários a não construir nas ribas e a deixar espaço
para abrir urna rua espaçosa. Entretanto, já estava a entardecer, e no comboio
de regresso a casa, Nunes da Matta contempla e extasia-se corn o pôr do Sol e a
paisagem que desfrutava. Subitamente "por entre a escuridão",
pareceu-lhe ver urn pequeno castelo, ao mesmo tempo que ouvia gritar Parede.
Decide regressar rio dia seguinte a Parede para "(...) contemplar o rnar
das ameias do castelo (...)". Cumprindo o que tinha prometido a si mesmo,
depois de terminar a aula na Escola Naval, embarca para Pedrouços e segue no
comboio para Parede. Ao apear-se, rapidamente se apercebe de que o
"pitoresco castelo" mais não era do que uma vigia de costa. Apesar de
desapontado, Nunes da Matta avança para a vigia: "descemos barrancos"
e "saltamos muros e silvados", por entre muros em ruínas até à vigia,
subindo a sua "escada desmantelada" até a "sólida varanda".
Curioso é o facto de nos informar da aridez da terra e da quase total falta de
arvoredo na "inculta planície pouco acidentada". Apercebe-se da
existência de duas "(...)graciosas praias, uma vasta e abrigada, do lado
do Nascente, e outra, menos vasta e mais sujeita as investidas do mar, do lado
do Poente." Depois, voltando-se para terra, avista as "(...) pequenas
casas de modestos canteiros e pequenos agricultores (...)" e idealiza
"(...) a perspectiva de uma futura e buliçosa vila ou cidade,
estendendo-se garbosamente desde as ribas do mar até à costa do outeiro."
É neste momento que Parede terá o seu futuro traçado, graças à visão e a obra
deste homem, que ditarão o rumo que a localidade irá seguir e que a
diferenciará das restantes povoações do concelho e mesmo da Linha de Cascais.
No dia seguinte a ter visitado Parede, o Capitão-Tenente vai falar corn Costa
Pinto, o Presidente da Câmara de quem era amigo, apesar de ser monárquico,
enquanto ele era republicano. Critica as construções que se estavam a fazer, ou
já feitas nos Estoris. Costa Pinto responde-Ihe que as câmaras não podiam
impedir os proprietários de construir nos terrenos junto ao mar e que não havia
lei que o impedisse. Então, Nunes da Matta, apela para que o mesmo não sucedesse
em Parede, e aí, o Presidente da Câmara diz-lhe: "Parede!...Parede!.. O
meu amigo sabe bem o que está dizendo?.. Parede!... O meu amigo está doido.
Tenho muita pena, mas está doido.. . Isso não presta para nada. Nunca passará
de uma pobre terra de canteiros". Esta afirmação provoca-Ihe a seguinte
reacção de indignação: "Oh Costa Pinto (...), olhe que não é assim, antes pelo contrário.
Parede há-de ter urn grande futuro. Salve as ribas de Parede, Costa Pinto,
salve-Ihe as suas ribas do mar!" Face à insistência de Nunes da Matta,
Costa Pinto responde-Ihe, "meio irónico": "(...) Meu caro amigo,
como já lhe tenho dito e repetido, nada posso fazer a favor das ribas do mar da
sua querida Parede; mas, em vista do seu grande entusiasmo, o único meio que
vejo, consiste em por sua conta e risco ir comprar os terrenos à beira-mar. E
depois de comprar os terrenos, deixe livre a zona que entender. Esta meu caro,
é a única solução admissível". Decidido a salvar as ribas do mar de parede
e apesar de contrariado pela família e de ser alvo de chacota pelas pessoas das
suas relações, começa a comprar os terrenos, pagando sem discutir, o preço
pedido - "Alguns não foram caros; mas os próprios vendedores, segundo nos
afirmaram, por detrás de nós sorriam e troçavam da nossa idiotice", além
de ter "(...) andado de chapéu na mão a pedir aos donos dos outros
terrenos que não construíssem casas sobre as ribas do rnar (...)". Na
verdade, para os vendedores, os terrenos só serviam para uso agrícola,
principalmente para a cultura da vinha, logo, como devido à filoxera não tinham
uso, não Ihes atribuíam qualquer valor. Por outro lado, a imagem e a posição
expressas pelo Presidente da Câmara de então encarnam a opinião que as pessoas
tinham acerca de Parede, inviabilizando assim outro uso para os terrenos, que
não o agrícola ou de extracção da pedra, ao contrário do que sucedia em Cascais
e nos Estoris, onde Os terrenos eram adquiridos pelos compradores para
construir casas, palácios, e chalets de veraneio.
Só um homem com a visão de Nunes da Matta, tem, nesta altura, a
percepção de que "Parede há-de ter um grande futuro. " Como
republicano, defende que a vista, o acesso e o usufruto do mar devem ser
privilégio de todos. Por isso, as ribas do mar e os terrenos que Ihes são
adjacentes deviam estar livres de construções e em seu lugar devia abrir-se uma
"rua espaçosa", ao contrário do que sucedia nos Estoris, onde a
aristocracia e a burguesia se apropriaram do espaço envolvente, de acordo com
ideais bem diferentes dos defendidos pelos republicanos. A confirmar estas
asserções, está o facto de ter cedido a maior parte dos terrenos "(...)
para ruas e também parte para largos, e que a Comissão Administrativa, a seu
belo prazer e sem consulta, destina grande parte para avenidas de vinte e cinco
e mais metros de largura sem pagar urn centavo. Se se considerar que sempre
estivemos prontos a dar terrenos com destino a serviços de utilidade pública,
como os terrenos que demos ao Asilo da Ajuda, actualmente Internato Afonso
Costa, ao Asilo de S. João, cada urn com uma superfície, pouco mais ou menos,
de dois mil metros quadrados, às duas escolas oficiais de Parede, à Associação
Musical União Paredense e a alguns particulares." De notar ainda que cedeu
outros terrenos a pedido da Comissão Administrativa para a construção do marco
fontenário e lavadouro em S. Pedro do Estoril, "(...) não se concluindo
esta última dádiva, pela razão dos povos do Murtal se terem oposto à mudança do
lavadouro (...)". Nunes da Matta, emprestava as chaves do pinhal de Parede,
que mandou plantar, a pessoas doentes e outras, que lá iam repousar. Por tudo
isto podemos dizer que o rumo que Parede irá seguir será resultante da
concepção que Nunes da Matta tem do que deve ser uma estância balnear, com mar
liberto de construções e em que todos os banhistas, turistas e doentes, a
possam frequentar. A sua intervenção ao comprar os terrenos, pautou-se por um
espírito filantrópico como se deve comprovar pelas doações de terrenos que fez
e que estão de acordo com os princípios do ideário republicano da época que ele
perfilhava. A obra do Almirante Nunes da Matta patenteia-se no traçado
ortogonal da parte de baixo da linha férrea; no facto de ser dos poucos trechos
da Avenida Marginal libertos de construções; no tipo de habitação (de que ainda
existem alguns exemplos); provavelmente influenciando a instalação do Sanatório
de Sant´Ana; e no tipo de ocupantes que aqui se fixam, nomeadamente
republicanos.
Pelos motivos acima enunciados podemos claramente dizer, do Almirante
Nunes da Matta, que apesar de ser uma personalidade com uma obra ímpar e
multifacetada, a sua maior realização, ainda hoje a mais visível e notável, foi
sem dúvida a que fez em prol de Parede."
Uma das cartas de Nunes da Mata para Bernardino Machado (Parede - 10 de Abril de 1932):